O Eu Invisível” analisa o papel da internet e dos algoritmos na disseminação do discurso de ódio
Mais de 70% das pessoas já se depararam com discursos de ódio ou conteúdos discriminatórios na internet, e mais da metade percebe crescimento desse tipo de mensagem nos últimos anos, segundo pesquisa global realizada para a UNESCO. É a partir desse cenário que o projeto “O Eu Invisível” lança o episódio “A Internet aumenta seu ódio?”, dia 23, às 18h, dedicado a investigar como as dinâmicas das redes sociais, associadas ao funcionamento dos algoritmos e à lógica do engajamento, contribuem para a amplificação do discurso de ódio no ambiente digital e seus impactos sociais e culturais. O programa pode ser acessado no canal Cris e Panda no Youtube (https://www.youtube.com/@crisepanda/)
O projeto é apresentado pelos criadores de conteúdo digital Cris Siqueira e Panda Mendes. No primeiro episódio da série, eles recebem o professor e pesquisador da Universidade Estadual de Londrina, André Fonseca, que fará uma análise sobre o papel do anonimato digital, da cultura de trolling, das bolhas informacionais e da fragmentação da autoridade midiática na disseminação do discurso de ódio.
"O primeiríssimo passo para pensar rede social é saber que são empresas bilionárias que estabeleceram uma espécie de condomínio na internet. Então, não são espaços livres, não é uma ágora, não é um espaço público. É um shopping ou um condomínio onde as pessoas estão sendo o tempo todo exploradas em termos de tempo”, explicou Fonseca.
Cris Siqueira destaca que nas redes sociais, criam-se verdades mentirosas dentro de bolhas, que se espalham como manifesto e incomodam quem pensa diferente. “Quem ganha são as big techs, que enchem o bolso de engajamento. Os engajamentos viram métricas, que são vendidas como oportunidade de espaço publicitário. É por isso que as brigas e o sentimento de alarmismo constante, são incentivados. Eles que giram a roda das redes sociais”, alertou.
Fonseca destaca que o discurso de ódio não é um sintoma, não é um efeito colateral. “Quanto mais raivoso for o conteúdo, mais aquilo está te provocando a discutir, te provocando a virar um consumidor e um produtor de conteúdo trabalhando de graça para as redes”, explicou.
Entre os eixos centrais está a discussão sobre como as plataformas digitais tendem a recompensar conteúdos que provocam reações emocionais intensas, como indignação, medo e hostilidade. Para Panda Mendes, "as pessoas recebem atenção quando você dá uma opinião tóxica. Você recebe comentários, você recebe críticas que às vezes te incomodam, mas as pessoas estão interagindo com você. Porque quando você não faz isso, as pessoas não interagem. Não existe reforço positivo”, disse.
Para Cris e Panda, sem critérios adequados de justiça e reparação, as redes tendem tanto permitir a circulação de discursos violentos quanto silenciar relatos de grupos vulnerabilizados, aprofundando assimetrias de poder no ambiente online.
O episódio também analisa o papel da desinibição e do anonimato nas interações digitais, apontados como fatores que facilitam comportamentos agressivos, práticas de assédio e ataques coordenados. Nesse contexto, a internet surge como um espaço que amplia dinâmicas sociais já existentes, permitindo que grupos relativamente pequenos atinjam audiências amplas e recorrentes.
Outro ponto abordado é a fragmentação da autoridade da mídia tradicional e das instituições cívicas, associada à consolidação das redes sociais como principal arena de debate público. O episódio destaca como esse processo contribui para a formação de câmaras de eco, nas quais narrativas alinhadas às crenças do grupo são reforçadas, enquanto vozes divergentes são deslegitimadas ou excluídas.
Ao articular referenciais teóricos, o episódio relaciona a disseminação do discurso de ódio ao conceito de hiper-realidade, formulado por Jean Baudrillard, segundo o qual as interações digitais passam a se desconectar da realidade concreta, criando um ambiente simbólico autônomo, no qual imagens e discursos se reproduzem sem ancoragem no mundo material.
O conteúdo também apresenta estudos que analisam o discurso de ódio como fenômeno de contágio social, discutindo processos de exposição repetida, engajamento gradual e recrutamento em comunidades extremistas. Pesquisas indicam que práticas aparentemente leves, como memes e humor codificado, podem funcionar como portas de entrada para discursos mais radicalizados, especialmente entre públicos jovens e socialmente vulneráveis.
Sobre os apresentadores
O projeto é apresentado pelos criadores de conteúdo Cris Siqueira e Panda Mendes. Juntos, possuem mais de uma década de atuação no universo digital. Unindo formações complementares: Cris como administradora de empresas e gerente de projetos, e Panda como filósofo, desenvolvem conteúdos que conectam cultura pop, entretenimento e comportamento humano, sempre a partir de leituras críticas, contextuais e acessíveis.
Reconhecidos pela abordagem que transforma obras audiovisuais, livros e fenômenos culturais em reflexões sobre a vida real, atuam com storytelling estratégico, interpretação narrativa e análise cultural, criando pontes entre ficção, cotidiano e experiência coletiva.