Em breve os deputados votarão sobre a obrigatoriedade do voto, daí a pergunta deste post. Será mais um item das votações sobre o sistema político que começaram na semana passada no Congresso. Ou da reforma política que, pelo menos até aqui, nada de essencial reforma – nada que mexa na crise de representatividade escancarada no país desde as manifestações de junho de 2013 ou que aponte para um resgate da política como instituição.
Mas será que o voto facultativo melhoraria a política? Tenho minhas dúvidas.
O que teria acontecido, por exemplo, nas eleições de 2014 se o voto não fosse obrigatório?
Uma pesquisa do Datafolha realizada em julho daquele ano, três meses antes do primeiro turno que sacramentou Dilma X Aécio, mostrou que mais da metade do eleitorado (55%) não iria às urnas se não fosse obrigatório.
As mulheres (58% delas) e as pessoas que ganhavam até dois salários mínimos na família (59% destes) seriam os que mais distantes das urnas teriam ficado em 2014, caso o voto fosse facultativo. Quanto maior a cidade, menos gente votaria (proporcionalmente). E um dado interessante: quanto pior a avaliação do governo, maior a disposição de não votar. Dos que classificavam em 2014 o governo Dilma como ruim/péssimo, 65% não iriam às urnas!
Ou seja, em 2014, se o voto fosse facultativo, quem decidiria a eleição seriam preponderantemente os homens, aqueles de renda mais elevada, de cidades menores e os mais satisfeitos com o governo. Seria esta a base social e eleitoral que melhoraria o sistema político e, por extensão, o país?
Está certo, isto não é um argumento, apenas uma fantasia estatística. Um elemento para a reflexão.
Seja como for, fico na dúvida se a restrição do público votante resolveria alguma coisa. Mal ou bem, e apesar de todas as suas distorções, as eleições são momentos que favorecem a inclusão de setores sociais na disputa por recursos e reconhecimento político. Nesses termos, num país tão desigual como o Brasil, talvez a obrigatoriedade do voto seja um fator de estímulo à cidadania. Uma brecha (estreita, é verdade) para a população interferir de algum modo no jogo de interesses que conforma o país. Pois passado o frenesi eleitoral, como se sabe, a conversa é outra.
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