Por Willian Vieira e Gabriel Bonis
Dois
brasis subsistem na trajetória singular de Thiago Vinicius. Um é o país
do futuro, ufanista com o progresso econômico, a baixa taxa de
desemprego e os programas sociais que concederam aos pobres uma vida
melhor. Aqui o rapaz do Capão Redondo, periferia de São Paulo, terminou o
ensino médio, fez cursos de empreendedorismo em ONGs, começou a
faculdade de Administração e virou consultor de microcrédito de um banco
comunitário. Mas há o outro país, esse inapto para lidar com a
desigualdade e a violência que assolam seus jovens. "Na perifa, o Estado
só chega pela mão da polícia", diz Vinicius. No ano passado, seu irmão
de 22 anos foi alvejado com 11 tiros pela polícia na saída do banco,
após assaltá-lo: "Vítima do sistema, da falta de políticas", diz
Vinicius. O Brasil desse produtor cultural de 23 anos, sempre no "corre a
mil grau", é um país rachado, dividido entre os que abraçaram uma rara
chance e os que simplesmente não a tiveram. "Agora o Estado deve ter a
humildade de reconhecer sua grande dívida com a juventude, né?"
A
dívida tem as dimensões do País. Segundo dados do IBGE de 2008, o
Brasil possui cerca de 50 milhões de habitantes entre 15 e 29 anos,
faixa etária considerada "jovem" pelas políticas oficiais. Mas elas
parecem não alcançar a maioria deles. Dois milhões de jovens vivem em
favelas, a maior parte deles negros (66,9%) e cerca de 30% em famílias
com renda de até meio salário mínimo. As favelas do Rio de Janeiro
trazem um exemplo incômodo dessa realidade. Em tempos de comemoração
pela retomada de territórios controlados pelo tráfico graças às Unidades
de Polícia Pacificadora (UPPs), uma pesquisa com 700jovens realizada
pela Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais, mostrou que a
pobreza era para 24% deles o maior obstáculo, à frente do desemprego e
do tráfico.
O que explica os 22% de
jovens de 18 a 19 anos fora da escola sem ter completado o ensino
fundamental. Pobres e sem perspectiva, eles têm de trabalhar. Um estudo
do Ministério da Educação (MEC) mostra que 29% dos matriculados do 1° ao
9° ano trabalham. A ocupação é geralmente precária: quase metade não
tem carteira assinada e 71% ganham menos de um salário mínimo. Pior é
para os 20% que não trabalham nem estudam. Exposta a situações adversas,
essa população é mais suscetível a situação de risco. Há 70% mais casos
de morte violenta entre os jovens do que na população em geral. Em
2004, a Unesco publicou um estudo sobre políticas públicas para essa
população. "Conclusão: o jovem era o que mais matava e mais morria", diz
Marlova Jovchelovitch, diretora de Ciências Sociais da Unesco. "E.
infelizmente, isso ainda é realidade." Tanto que o próprio ministro da
Secretaria de Assuntos Especiak (SAE), Moreira Franco, afirmou que o
País falhou em criar políticas efetivas para os jovens. "Não estamos
dando a possibilidade de aproveitarem o crescimento econômico e a
diminuição da desigualdade."
E nesse
cenário de imensa dívida social que o País se depara com um paradoxo:
são os jovens de hoje, pouco contemplados por políticas, os responsáveis
pelo futuro. Pois o Brasil envelhece. Segundo o Ipea, a participação de
indivíduos entre 15 e 29 anos no total da população alcançou seu pico
em 2000. Desde então, tem declinado, ao passo que, até 2020, o número de
brasileiros com 80 anos ou mais deve dobrar, até alcançar a marca de 6
milhões. Os jovens de hoje sustentarão os velhos de amanhã.
0s
velhos de hoje é que não prepararam o terreno. Ao contrário de outros
países da América Latina, as ações desencadeadas pelas agências da ONU
para a juventude nos anos 1980 tiveram pouca repercussão aqui. A
preocupação centrou-se nas crianças e adolescentes em situação de risco:
milhares deles morriam de fome. "Até os anos 2000, o jovem não era
sujeito de política pública por um efeito perverso do Estatuto da
Criança e do Adolescente, que definia em 18 anos a etapa terminal da
juventude", afirma Juarez Dayrell, coordenador do Observatório da
Juventude da UFMG. Quem estava acima dessa idade não era foco da ação
estatal, dada a concepção cristalizada de que já estariam prontos. "Mas
essa fase é a mais delicada. Nesse momento o jovem se decide
profissionalmente, e está mais sujeito às drogas e à criminalidade."
O
diagnóstico encontra eco nas ruelas sem tratamento de esgoto da
periferia de São Paulo. "Quando você é criança, todo mundo quer te
ajudar, mas é na adolescência que você precisa de mais apoio. E quando,
por causa das dificuldades, se procura o caminho mais fácil", diz Davi
de Sousa, 23 anos. Morador do Jardim Panorama, Davi conseguiu uma vaga
gratuita no curso de torneiro mecânico no Instituto Dom Bosco e o
patrocínio de uma empresa para pagar os três ônibus que tomava. O
paulistano mantinha um grupo de rap, com o qual emplacou um projeto
cultural e recebeu 8 mil reais para levar sua música a favelas e
escolas. Parecia o auge. Há cerca de um ano, porém, o jovem politizado
perdeu o emprego, ficou sem-teto, quase foi "coop-tado" pela
criminalidade. Teve sorte mais uma vez. Até que outro projeto da ONG o
chamou e ele arrumou emprego. Hoje atua como educador em um abrigo para
crianças e faz faculdade de História. Seu futuro pode, assim, ser
ensinar outros jovens na sala de aula a mudar a própria trajetória.
Tal
história vencedora, porém, não é regra, mas exceção. Pois não é fácil
romper o ciclo de exclusão de uma vida inteira com um curso. Até em uma
instituição que qualifica mais de 700 estudantes de graça por ano, os
alunos enfrentam dificuldades para acompanhar as aulas, por causa das
falhas na educação das escolas públicas. "É necessário um mínimo de
conhecimento de português e matemática. As dificuldades levam a uma
evasão de 20%", afirma Sandro Martins, coordenador de cursos
profissionalizantes do Dom Bosco, onde metade dos alunos vem da
periferia. É ali, nas salas repletas de computadores, que a maioria se
depara com uma rede de proteção social efetiva pela primeira vez na
vida.
"A juventude foi um dos últimos
segmentos a ganhar reconhecimento das políticas públicas no Brasil",
certifica a secretária Nacional de Juventude, severine macedo. A
secretaria foi criada somente em 2005, com o Conselho Nacional de
Juventude (Conjuve) e do Projovem, na esteira do Plano Nacional da
Juventude. Hoje, essa faixa da população tem, oficialmente, direito a
ações específicas do Estado em educação e na geração de emprego.
Funciona? Pouco. "Estamos disputando uma visão do que é ser jovem no
Brasil", diz severine. O projeto de lei, que cria o Estatuto do Jovem e
define os seus direitos e o Sistema Nacional de Juventude, está
emperrado no Congresso. "No Senado, há uma veia conservadora da
sociedade. Ouvimos, nesses debates, dizer que o Estado não deve
sustentar marmanjo." Os parlamentares não alcançaram um consenso sobre o
que é ser jovem e como devem ser assistidos.
"Hoje
não há marco legal para implantar uma política mais integral", diz a
secretária. Desde a criação da secretaria, mais de mil municípios
montaram estrutura semelhante, o que não evita a sobreposição de ações: o
jovem é ponto cego das políticas públicas. Tem estado com a Secretaria
da Juventude e Esporte, Juventude e Cultura e por aí vai. E o que dizer
do orçamento de 30 milhões de reais da pasta? Hoje, o órgão repassa
meros 150 mil reais a cada estado, para seminários e conselhos de
discussão. Com o Sistema Nacional seria possível estabelecer convênios
mais eficazes e ganhar uma "definição orçamentária", diz.
Pode
ser um passo importante para que o País deixe para trás a ideia de que o
jovem é um problema. "As primeiras políticas do governo FHC viam esse
excedente jovem sem trabalho como risco. Hoje se começa a vê-lo como um
sujeito importante para o futuro", diz o coordenador do Observatório
Jovem da UFF, Paulo Carrano. O momento econômico é propício. Em 15 anos,
o número de vagas de primeiro emprego passou de 1,7 milhão em 1996 para
2,9 milhões em 2012. Ao mesmo tempo, o desemprego entre a população de
18 a 29 anos é quase três vezes maior que na faixa de 30 a 60 anos. Ou
seja, há um mundo de jovens em busca de ocupação, mas sem qualificação
para entrar de fato no mercado de trabalho.
A
demografia também ajuda. Ao contrário das décadas passadas, onde a base
da pirâmide etária (ou seja, as crianças) era enorme e a de idosos,
ínfima, pelos próximos anos a tendência é haver proporcionalmente cada
vez mais adultos. Ou seja, há uma "janela de mudança", que pode ser o
momento ideal para zerar o déficit educacional e investir no ensino
técnico e universitário. Seria uma forma de evitar o que ocorre tem
ocorrido hoje: falta de mão de obra qualificada de um lado e jovens
frustrados e sem oportunidades de outro.
Não
é que o Estado não tenha iniciativas: elas só não funcionam de forma
integrada. Nos dois mandatos de Lula, 11 milhões de jovens foram
beneficiados por políticas do governo, a maioria programas emergenciais,
como elevação de escolaridade, capacitação profissional e inclusão
digital. Em 2008, seis dos programas do governo foram unificados no
Projovem. Destinado a brasileiros de 15 a 29 anos, o programa deveria
promover a reintegração do jovem ao processo educacional, a qualificação
e o acesso à cidadania. A meta anunciada previa .alcançar a totalidade
de jovens vulneráveis no País. Menos de um quinto deles foi atendido no
primeiro ano, revelou um levantamento do Ipea.
Em
dezembro, o programa Brasil Carinhoso, caro à presidenta Dilma, passou a
contemplar, além das crianças, jovens de até 15 anos em situação de
pobreza extrema. Cada um receberá 70 reais mensais, se frequentar a
escola. Cursos profissionalizantes (via Sistema S) devem, no curto
prazo, entrar no pacote. E um começo. Por enquanto, é o Projovem a
entrada mais concreta para a inclusão de jovens no País.
Por
decisão da presidenta Dilma Rousseff, o programa migrou em 2011 da
secretaria para o Ministério da Educação. Especialistas comemoraram: com
a estrutura do MEC, haveria mais chance de se chegar aos necessitados.
Em diversos estados onde o programa funcionava nas escolas municipais,
elas limitavam o acesso à infraestrutura comum aos alunos regulares. Há
até casos de proibição de uso de bebedouros. E os cursos eram muitas
vezes precários e não profissionalizavam de fato. Ou seja, após o curso,
o jovem continuava na mesma situação: pobre e sem entrada no mercado.
"As ações não podem ser isoladas", diz Marlova, da Unesco. "O curso
profissionalizante é só a porta de entrada: depois, faltam políticas que
deem continuidade a esse ingresso." Não é um curso de alguns meses que
vai mudar toda uma biografia de exclusão.
O
que deve ser feito, então? Investir na educação é o primeiro passo. O
governo parece disposto a mudar o ensino médio. Matérias devem sei-
condensadas para refletir a realidade do aluno e a do mercado. "Mas não
se faz isso apenas com mudança de disciplinas", explica a socióloga
Marilia Sposito, da Universidade de São Paulo. Para o governo, ampliar o
ensino técnico e investirem programas federais de ampliação do ensino
superior que aumentam o acesso dos mais pobres, como o Prouni (que dá
bolsas para pagar a universidade) e o Reuni (que tem expandido o número
de vagas nas federais), são o caminho -além das cotas para negros,
índios e alunos de escola pública. Seriam formas de atrair o jovem
excluído. "Pais entradas no sistema podem ser um bom começo, mas é
preciso garantir uma rede de apoio ao estudo. "A USP aprendeu: sem
auxílio para habitação, transporte e alimentação os estudantes
simplesmente vão embora", diz Sposito.
Os
especialistas são unânimes ao afirmar que a educação na juventude
parece se manter por um fio. Um levantamento do Unicef revela que cerca
de 1,5 milhão de jovens entre 15 e 17 anos estão fora da escola. Muitos
enfrentam problemas como a pobreza extrema, drogas, violência e
gravidez. Têm uma vida instável, que afasta a prioridade da educação e
os leva a abandonar a escola. Quando voltam, muitos são pais e precisam
pagar as contas de casa. Segundo a Fundação Perseu Abra-mo, 20% dos
meninos que largaram os estudos tiveram o primeiro filho antes dos 18
anos. Entre as mulheres, o porcentual é de quase 50%. Sobra a Educação
de Jovens e Adultos (FJA), especialmente por seus cursos noturnos. Quase
20% dos matriculados no programa têm de 15 a 17 anos. O desinteresse é
outra causa importante da evasão. Sem serem fisgados pela educação
formal, muitos jovens deixam as aulas, ficam anos fora. Só mais tarde,
quando a necessidade de um emprego bate à porta, é que percebem a
importância dos estudos.
Como impedir
que educação e emprego concorram pela atenção do jovem? Fundamental é a
mudança das noções de trabalho juvenil. Carga menor de trabalho,
horários mais maleáveis e a garantia de que o estudo venha em primeiro
lugar são o primeiro passo para conciliar os dois pontos que surgem
entre as maiores preocupações da juventude, educação e emprego. "Falta
consenso entre o empresariado. Não é uma briga fácil. Depende de mudança
legislativa e de um pacto com vários setores", comenta severine macedo.
Do contrário, os jovens continuarão a aceitar empregos ruins para
manter a família.
Além do esforço para
dar oportunidades ao jovem das cidades, só nos últimos anos o governo
tem olhado para o campo. Hoje há dois programas para a juventude rural, o
Nossa Primeira Terra e o Pronaf Jovem, linhas de crédito que financiam a
compra de terras pelos jovens e o investimento em suas propriedades. ()
objetivo é criar chances de renda nos locais onde nasceram e coibir a
migração. Vieram tarde. No Brasil, a agricultura familiar e campesina
produz 70% dos alimentos, mas há poucas universidades e opções culturais
em ambiente rural. O desafio é grande: a juventude do campo tem
condições de vida precárias e dificuldades de acesso a equipamentos
públicos. Um terço dos jovens pobres mora na zona rural, onde o nível de
escolaridade é 26,5% inferior à média nacional. O analfabetismo atinge
H%, ante 2% nas áreas urbanas.
No
campo e na cidade, os jovens carecem de apoio distinto: são juventudes
no plural, dizem os especialistas, cada uma com sua realidade. Nenhuma
juventude sofre mais que a negra e (geralmente) pobre. Segundo o Unicef,
um adolescente negro tem quase quatro vezes mais risco de ser
assassinado do que um branco. O número de jovens negros analfabetos, na
faixa etária de 15 a 29 anos, é quase duas vezes maior que o de brancos.
"Mesmo que o jovem negro consiga enfrentar a desigualdade e educar-se,
ainda resta o preconceito", diz Carrano. "Para sair desse ciclo vicioso,
ele precisa ser ajudado. E políticas públicas não adiantam se não
vencermos a pobreza." Enquanto o ideal de distribuição de renda segue
longe, políticas específicas ajudariam a integrar esses jovens. Por
exemplo, facilitar o trânsito da periferia até o centro, dar-lhes acesso
ao lazer e à cultura - inclusive, a mostrar a cultura que produzem. Na
Dinamarca, quem tem até 29 anos possui acesso aos equipamentos culturais
com meia-entrada. "No Brasil, quem não estuda não tem acesso a esse
universo", diz Sposito. Fica cada vez mais de fora.
O
governo quer implementaras Estações da Juventude, com criação de
espaços públicos para unir ações de cultura, esporte e lazer, além de
profissionais a encaminhar o jovem a políticas específicas. No papel, é
promissor. Mas só deve virar realidade se depender dos próprios jovens.
Pois, a despeito da pecha de "apáticos", os jovens cada vez mais têm
lutado por direitos. Após cerca de 1,5 mil reuniões em todo o Brasil,
que mobilizaram meio milhão deles, segundo a secretaria, milhares foram a
Brasília este ano para a segunda Conferência Nacional da Juventude.
Dentre as propostas aprovadas estavam o aumento das cotas e de cursos
técnicos gratuitos. Não são burocratas sentados em suas mesas na capital
ditando regras: os jovens é que apontam suas próprias carências.
Tiago
de Holanda Porto, 25 anos vividos em uma comunidade violenta no Jardim
Paulista, Barueri, é o retrato de como essa imagem do jovem apático
ficou no passado, um caso exemplar do encontro feliz entre oportunidade e
teimosia. Adolescente, estudou mecânica industrial em uma ONG. A mãe,
passadeira, trabalhava perto, uma sorte que agarrou, transformando em um
salário inédito para a família: 729 reais. Tiago financiou a faculdade
de Educação Física, ainda que sobrassem menos de 300 para o mês. Só não
desistiu porque conseguiu uma bolsa. Eram seis conduções por dia e uma
carona para ir ao trabalho, à faculdade e para casa. "Tinha dia que eu
perdia as aulas porque não podia sair de casa por causa da troca de
tiros na vizinhança."
Hoje casado, pai
de um filho de 5 anos, bolsista em "colégio de rico", Porto pensa em um
mestrado, em trocar de apartamento, tem plano de saúde familiar. Uma
realidade que seria impossível sem uma chance concreta para entrar,
qualificado e bem-educado, no mercado de trabalho.