Especialista em gestão de pessoas e liderança aponta que modelo pressiona estruturas tradicionais e exige foco em produtividade real


A possível adoção da escala de trabalho 5x2 no Brasil não deve impactar apenas a organização da jornada, mas pode expor fragilidades estruturais em empresas que ainda operam com baixa eficiência e foco no controle de horas. O modelo, que concentra cinco dias de trabalho seguidos por dois de descanso, desloca o olhar da presença física para a produtividade efetiva, pressionando organizações ainda baseadas em estruturas rígidas de gestão.

Especialistas avaliam que a adaptação vai além da reorganização de turnos, exigindo redesenho de fluxos, revisão de metas e maior investimento em tecnologia e gestão de pessoas. Em um cenário de transformação das relações de trabalho, empresas que não revisarem seus processos tendem a enfrentar maior dificuldade na transição.

Para organizações com baixa eficiência operacional, o impacto tende a ser mais sensível. Negócios que ainda operam com base no controle de horas e pouca mensuração de resultados podem enfrentar queda de desempenho no curto prazo. Por outro lado, empresas com processos bem estruturados e indicadores claros de produtividade por hora devem absorver a mudança com maior previsibilidade. A lógica passa a ser menos sobre o tempo disponível e mais sobre o valor gerado, exigindo métricas mais precisas e acompanhamento contínuo.

A psicóloga Bruna Antonucci, consultora em gestão de processos e pessoas, avalia que o impacto não será uniforme entre as empresas. “A escala 5x2 não cria o problema — ela escancara o que já não funcionava. Empresas que ainda medem presença, e não resultado, tendem a sofrer mais com a mudança. Já organizações que investem em processos bem desenhados, produtividade por hora e engajamento real conseguem fazer essa transição com mais consistência”, afirma.

Segundo a especialista, o principal erro está em tratar a mudança como um ajuste superficial. “Mudar turnos ou redistribuir equipes sem revisar processos é enxugar gelo. Antes de qualquer alteração estrutural, é essencial analisar o impacto real nos fluxos de trabalho, eliminar retrabalho e alinhar responsabilidades. Quando há clareza operacional, a adaptação deixa de ser um problema e passa a ser uma oportunidade de ganho de eficiência”, explica.

Do ponto de vista dos trabalhadores, a escala 5x2 tende a ampliar a previsibilidade da rotina e favorecer o equilíbrio entre vida profissional e pessoal. Esse fator pode contribuir para maior engajamento, redução de afastamentos e retenção de talentos. No entanto, a especialista alerta que os benefícios dependem diretamente da forma como a transição é conduzida. Ambientes com sobrecarga, metas desalinhadas ou baixa organização podem anular os ganhos esperados.

A adoção do modelo também deve impulsionar mudanças culturais relevantes. Empresas serão pressionadas a adotar práticas mais transparentes, com metas claras e comunicação objetiva. A liderança assume papel central nesse processo, sendo responsável por alinhar expectativas e garantir que as equipes compreendam os novos critérios de desempenho. Sem esse ajuste, o risco é de aumento de conflitos internos e perda de produtividade.

No médio prazo, a escala 5x2 pode funcionar como um catalisador de modernização. “A necessidade de operar com mais eficiência tende a acelerar a digitalização de processos, a automação de tarefas repetitivas e o uso de indicadores mais precisos. Para empresas que atravessarem esse período com planejamento e disciplina, o resultado pode ser uma operação mais enxuta, sustentável e competitiva”, finaliza Bruna.