Estudo coordenado pela ABRA analisa como filmes nacionais de ficção retratam a emergência climática
Uma pesquisa inédita no Brasil, que busca fazer um retrato detalhado das narrativas climáticas e ambientais em filmes nacionais, será apresentada na COP 30, Conferência Mundial sobre o Clima, que acontece este ano em Belém (PA). Intitulado “Clima em Cena: A Emergência Climática em Filmes de Ficção Brasileiros”, o estudo foi coordenado pela Associação Brasileira de Autores Roteiristas (ABRA) e utiliza a metodologia Climate Reality Check, desenvolvida pela organização norte-americana Good Energy. A iniciativa contou com apoio do Projeto Paradiso e da Entertainment + Culture Pavilion.
A pesquisa revela que apenas 9% dos filmes de ficção nacionais analisados fazem referência direta à crise climática em seu universo e apresentam personagens que demonstram consciência sobre o tema. Esta é a primeira vez que o estudo é realizado fora dos Estados Unidos, onde a metodologia tem sido aplicada em filmes indicados ao Oscar, por exemplo.
“Este é um primeiro retrato sobre como uma seleção de filmes ficcionais brasileiros abordam a crise climática, a partir da lente de uma metodologia desenvolvida nos EUA. A ABRA pretende aprofundar o estudo e inclusive discutir sua adaptação ao nosso cinema. Não se trata de prescrever como os filmes devem abordar o tema. Muito menos uma avaliação de sua qualidade. Mas um convite à reflexão.”, afirma Thais Olivier, presidente da ABRA.
A apresentação dos resultados na COP ocorrerá em duas ocasiões. No dia 18 de novembro, às 18h, será realizado em parceria com o Observatório do Clima, no Instituto de Ciência da Arte, no Centro de Belém. No dia seguinte, 19 de novembro, às 12h, o estudo será tema de uma mesa na Blue Zone da COP, no espaço da Entertainment + Culture, com a participação de representantes da ABRA, Good Energy e do Observatório Audiovisual Sustentável. Será, inclusive, o marco do lançamento oficial do Observatório, um hub colaborativo que reúne referências globais para inspirar práticas sustentáveis no audiovisual brasileiros, idealizado pela pesquisadora Stella Bollina em parceria com a Cinema Verde.
“A pesquisa Clima em Cena destaca que a lacuna de narrativas sobre o clima é um desafio global, algo que as indústrias criativas precisam enfrentar em todos os mercados. Agora, mais do que nunca, a cultura precisa ser integrada aos planos de adaptação climática, e isso não acontecerá se a emergência climática não estiver refletida em nosso entretenimento mainstream.”, afirma Samuel Rubim, co-fundador do Entertainment + Culture Pavilion.
O levantamento busca contribuir com o debate audiovisual sobre a importância das narrativas climáticas e ambientais na cultura brasileira, em um país que é ao mesmo tempo um dos maiores emissores de gases de efeito estufa e também um dos mais vulneráveis aos impactos do aquecimento global. Embora 57% dos filmes avaliados apresentem questões ambientais locais, como desmatamento, poluição e perda de biodiversidade, apenas 9% conectam essas temáticas à emergência climática global. Os três títulos que cumpriam todos os requisitos foram A Flor do Buriti, de Renée Nader Messora e João Salaviza; A Nuvem Rosa, de Iuli Gerbase; e Homem Onça, de Vinícius Reis.
A análise abrangeu 33 filmes brasileiros lançados nos últimos cinco anos, indicados ao Grande Otelo, principal prêmio do cinema nacional, ou selecionados em um dos 5 festivais internacionais de prestígio (Cannes, Berlim, Veneza, Locarno e Sundance). Entre eles, Medida Provisória, Marte Um, Ainda Estou Aqui, A Melhor Mãe do Mundo e O Último Azul.
Aplicando a metodologia Climate Reality Check, desenvolvida pela Good Energy e pelo Buck Lab for Climate and Environment (Colby College, EUA), o estudo avaliou se as obras reconhecem a existência da crise climática e se há personagens que demonstram conhecimento sobre o problema. Nos Estados Unidos, o mesmo método identificou, em 2024, que 9,6% das obras passavam pelo teste.
“Os dados indicam um distanciamento entre a realidade climática vivida pelos brasileiros e a forma como ela é retratada na ficção. O objetivo não é prescrever temas, mas provocar reflexão: como a maior crise da humanidade aparece nas nossas histórias?”, afirma a roteirista e pesquisadora Gisele Mirabai, que coordenou a equipe de pesquisa.
A aproximação com a Good Energy foi iniciada pela ABRA no ano passado, após as enchentes no Rio Grande do Sul em 2024, um dos maiores desastres climáticos da história do país. Este ano, a roteirista Carmiel Banasky, representante da Good Energy, veio ao Brasil para participar do FRAPA, e, em seguida, vai desembarcar em Belém para a COP 30.
“Tem sido extraordinário observar a expansão do Climate Reality Check para além dos Estados Unidos pela primeira vez e ver como a metodologia pode ser adaptada às especificidades culturais. Tenho a honra de apresentar essas descobertas no Brasil ao lado da ABRA e do Projeto Paradiso, e de contribuir para o crescente apelo da Good Energy por uma visibilidade climática significativa nas telas. Quando os filmes refletem nossa realidade climática, eles têm o poder de mudar o debate cultural e ajudar o público a encontrar coragem e inspiração para responder a essa crise”, celebra Banasky.
O Projeto Paradiso apoia o desenvolvimento da pesquisa e a presença de Carmiel no Brasil. “O cinema tem uma força única para dar sentido à realidade e provocar empatia. Quando o audiovisual incorpora a pauta climática, ele ajuda a transformar um tema urgente em algo próximo, vívido e compreensível. É por isso que o Projeto Paradiso apoia iniciativas como esta, porque acreditamos que contar histórias é também uma forma de impactar positivamente o nosso futuro”, afirma Rachel do Valle, diretora de programas do Projeto Paradiso. A publicação da pesquisa Clima em Cena pode ser acessada no site do Projeto Paradiso.