Eufrásia Teixeira Leite é inspiração para
empresárias que investem no turismo regional
Nascida na cidade de Vassouras, RJ, Eufrásia Teixeira Leite
foi uma mulher rica e independente. Rejeitou as convenções da
sociedade da sua época, como o casamento, e manteve-se dona de
seu patrimônio, que multiplicou através de investimentos
feitos por conta própria: foi a primeira mulher brasileira a
investir na bolsa de valores, com ações em 9 países.
Eufrásia viveu entre o meio do século XIX e o início do
século XX, mas, se estivesse viva, certamente teria orgulho
das mulheres que acreditam e investem na região através do
turismo: setor que valoriza a cultura, a história e
potencializa o crescimento da economia.
É também de Vassouras uma empresária que, assim como
Eufrásia, trouxe de família o aprendizado sobre negócios: Ana
Lucia Furtado. Gestora do Hotel Santa Amália, em
Vassouras, atua há 30 anos no empreendimento fundado pelo pai,
que hoje recebe cerca de 12 mil turistas anualmente, em seus
130 leitos. Desde cedo, Ana Lucia percebeu que crescer no
turismo significa investir na rede que atende ao turista, o
que envolve o comércio local, a manutenção das estradas e
qualificação da mão de obra.
Assim, desenhou a trajetória com passagens pelo poder
público, como a secretaria de turismo, e em associação mistas,
como os conselhos regional e municipal de turismo. Em 2015, a
hoteleira abriu mais um empreendimento, a Vila Hibisco Pousada
e Apart, que além de hospedar também oferece módulos para
moradia.
“O mercado do turismo está, aos poucos, retomando seu lugar
de destaque após alguns anos de recesso. Creio que o interior
do Rio vem mais forte e estruturado, ganhando visibilidade no
mercado a cada ano. As expectativas são boas para quem soube
permanecer no mercado, se reinventar e destacar suas
potencialidades, investindo também em atendimento,
experiências e encantamento”, conta ela que inaugurou no fim
de 2019 área reformada no hotel, um investimento de mais de R$
200 mil.
O turismo histórico é uma das grandes vocações do Vale do
Café, que teve seu apogeu econômico durante o ciclo de
produção do grão, entre a metade e o fim do século XIX. Além
dos turistas, outro setor atraído pelos casarões e cenários
que remetem ao passado é o de produções audiovisuais. Um dos
casarões mais solicitados para filmagens é a Fazenda do
Paraizo, em Rio das Flores, a mais autêntica da região,
gerenciada pela administradora Simone Botelho,
casada com um dos proprietários da fazenda.
Desde 2002, ela abre o casarão de 2.200 m2 e 99 janelas,
construído em 1845 pelo Barão do Rio Preto, para visitação e
filmagens. Ela recebe em média 3 produções audiovisuais por
ano, incluindo filmes e novelas, com equipes de 100 a 300
pessoas, movimentando intensamente a hotelaria, comércio,
serviços e restaurantes do município de 8 mil habitantes.
Assim como Eufrásia Teixeira Leite, que manteve a casa dos
pais intacta por mais de 40 anos em Vassouras, Simone é a
própria guardiã da Paraizo: “Me esforço para receber os
turistas e equipes de filmagem da melhor forma, ao mesmo tempo
que não descuido da conservação da casa, um monumento que
retrata a vida e os costumes no século XIX”.
Vizinha à Paraizo, também no tranquilo município de Rio das
Flores, está a Fazenda União, que foi totalmente restaurada e
desde 2007 transformada em hotel histórico. Gerenciada por Camila
Carrara, a União faz parte do seleto grupo do
Roteiros de Charme, que investe em hospedagens rústicas,
aconchegantes e com serviço de alto padrão. Com 21 anos de
experiência no turismo, Camila é a gerente do hotel histórico
que possui 42 funcionários contratados e cerca de 10
terceirizados.
Para manter um serviço de qualidade, ela conta com
investimento constante em treinamento e reciclagem, tendo
reforço de um profissional externo, que visita a fazenda a
cada bimestre. Os fornecedores, que chegam a duas dezenas, são
geralmente da região, com objetivo de fortalecer a economia
local. “A região do Vale do Café é encantadora e tem forte
apelo turístico e cultural. Temos excelentes artesãs e vários
artistas muito talentosos, como, por exemplo, o Jeronimo
Magalhães, restaurador, responsável por grande parte das obras
da Fazenda. A região certamente será descoberta pelo grande
público, tornando-se, em breve, um novo oásis para o turismo
cultural nacional”.
Qualificação e geração de renda são assuntos caríssimos a
duas mulheres de Rio das Flores, responsáveis por promover o
empreendedorismo e contribuir com a renda de mais de 30
famílias. As irmãs aposentadas Cidinha Rechden
e Lineia Paiva, desde 2004 coordenam a
Florart - Associação de Artesãos de Manuel Duarte e Porto das
Flores - uma loja física para expor e vender produtos criados
por artesãos locais. São bordados, almofadas e pufes, a
maioria produzida a partir de material reaproveitado ou
natural.
Além de fornecer matéria prima, a Florart realiza cursos de
qualificação, procurando direcionar os trabalhos às demandas
de mercado. “Fazemos uma curadoria dentro da produção desses
artesãos, estimulando criações sustentáveis e com motivos que
se relacionem à identidade do Vale do Café, com bordados e
desenhos que tenham a região ou o próprio grão como tema”,
conta Cidinha.
A Fazenda São Luiz da Boa Sorte, em Vassouras, tem mais um
nome de peso para propagar a história e cultura do Vale do
Café. Trata-se de Liliana Rodriguez,
jornalista e empresária, que desde a inesperada compra da
Fazenda São Luiz da Boa Sorte pelo marido, Nestor Rocha,
encantou-se e debruçou-se sobre história do período cafeeiro.
“Quando a São Luiz da Boa Sorte foi adquirida, a sede e seu
entorno estavam totalmente saqueados e abandonados. Tomei um
susto, achei uma loucura, até chorei de emoção e preocupação.
Isso foi há 15 anos, quando iniciamos um longo período de
trabalho e aprendizado”. O foco em educação de jovens sobre a
história da fazenda e o período em que foi construída norteou
os projetos seguintes do casal. Abriram a capela e a sede para
visita de escolas públicas, Liliana publicou o livro “A
Fazenda São Luiz da Boa Sorte e o Ciclo do Café”, pela editora
Senac, e, mais tarde, iniciaram o projeto “Viagem ao Tempo dos
Barões e Escravizados”, no qual já receberam cerca de 13 mil
alunos e 400 professores de escola pública.
Hoje, a Fazenda São Luiz da Boa Sorte conta com a casa sede
restaurada, a capela, o Museu do Café, único no Estado do Rio,
o Memorial do Escravizado, e estrutura para hospedagem e
eventos; com 27 suítes, restaurante e extensa área de lazer. O
complexo emprega mais de 50 funcionários. “O que me motiva a
investir no turismo é a vocação natural dessa terra, suas
raízes e sua história, fundamental para o Brasil e menos
mostrada do que merece”, diz Liliana.
Tantas histórias inspiradoras e belezas naturais atraíram ao
Vale do Café empreendedoras além-fronteiras, como a
ítalo-argentina Josefina Durini. Trazendo
consigo o objetivo de tornar uma fazenda agroecológica em um
modelo de negócio rural sustentável, a arquiteta não apenas
concluiu a meta, como também reformou um casarão histórico de
1863, preservando a fachada e reformulando seu interior. A
experiência na Fazenda Alliança, que possui certificação
orgânica desde 2011, envolve visita à horta e pomar,
caminhadas até a ordenha das búfalas e aprisco dos carneiros e
refeição preparada com ingredientes frescos da fazenda.
Há dois anos a fazenda começou a produzir café orgânico, que
em breve será comercializado com a marca “Durini”. Sobre a
região, Josefina tem se esforçado para que a região se torne
uma referência em turismo sustentável. Para isto, ela abre as
portas de sua casa de 8 suítes num modelo de hospedagem rural
para turistas com interesse em agroecologia e alimentação
saudável, um modelo que vislumbra ser copiado e sempre “com
uma atuação que respeite o meio ambiente, preserve a
biodiversidade e mantenha viva a História do Brasil e do
café”.
Quando falamos em empreendedorismo na região, outro nome se
sobressai: Cristina Braga, musicista e
aspirante a jardineira, como ela mesma diz. Cristina foi a
criadora do Festival Vale do Café, que há 18 anos encanta os
visitantes da região com apresentações de música clássica nas
fazendas históricas, além do Flor Atlântica e a Festa das
Luzes e Arte da Mata Atlântica com o iluminador Paulo Cesar
Medeiros. Há 5 anos ela inaugurou, ao lado do marido, o músico
Ricardo Medeiros, o Jardim Ecológico Uaná Etê, espaço aberto à
visitação dedicado à natureza e às artes.
“O Uaná Etê é um centro cultural turístico em forma de
jardim, um paraíso eco cult feito para as pessoas se sentirem
bem, percebendo, com todos os sentidos, como a música e a
natureza são fundamentais. Já plantamos mais de 50 mil mudas
entre sapucaias, quaresmeiras, paineiras, bougainvílleas, e
trouxemos artistas para criarem ambientes para visitação e
fotos, como o Labirinto da Música, e a Asa, que fica em um dos
pontos mais altos de Uaná”.
O Uaná Etê, aberto em 2014, hoje tem taxa de visitação de 800
pessoas mensais. A equipe fixa é formada por 12 anfitriões e
conta com mais de 40 fornecedores locais de plantas, flores,
bebidas e alimentos. Além da visitação regular, possui
constante agenda de eventos que já levou à região nomes como
Dado Villa-Lobos, Zeca Baleiro e Oswaldo Montenegro, e aumenta
consideravelmente a grade de prestadores de serviços e apoio
no jardim.
Com o 3º maior mercado de destilados do mundo, atrás apenas
da China e Estados Unidos, a cachaça cresce na região que já
foi famosa pela produção de café. A Cachaça Werneck, produzida
em Rio das Flores dá orgulho à cidade: coleciona mais de 30
prêmios nacionais e internacionais e figura, há 6 anos, na
lista das 50 melhores cachaças do país pelo Ranking da Cúpula
da Cachaça. Há retoques importantes de uma mulher por trás de
cada novo blend lançado pela Werneck: são da artista plástica
Cilene Werneck, que acompanhando as
atividades no alambique com o marido, Eli Werneck, acabou
descobrindo um dom para identificar sabores e aromas na
bebida.
“Durante a prova das cachaças acabei percebendo que tinha o
dom de identificar aromas, uma parte extremamente importante
na confecção da bebida. Hoje, podemos dizer que nossa cachaça,
artesanal e orgânica, desempenha um trabalho importante de
mostrar que nem só de café vive o Vale do Café”. Em abril
desse ano, a Werneck completa 10 anos de mercado, com mais de
60 mil garrafas no Brasil e exterior. “Será definitivamente um
ano para comemorar”, ela diz.
Mulheres à frente de um dos principais mercados da região, o
turismo, é uma verdadeira homenagem à inspiração trazida por
Eufrásia e muitas outras mulheres que engrandeceram o Vale do
Café.
Vale do Café Rio
Grupo de empresários de turismo na região Vale do Café, RJ.
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