Por mais que as mães tentem evitar conversas sobre assuntos delicados com as crianças, nem sempre isso é possível. Muitas vezes, a vida coloca situações que exigem calma e cautela, principalmente com relação aos pequenos. No entanto, são justamente esses momentos que deixam os pais com dúvidas.
“Mesmo que o assunto não seja fácil, é muito importante falar com a criança. Use uma linguagem simples e breve”, aconselha a psicóloga Aline Gomes.
Os menores captam as transformações do ambiente com muito mais facilidade do que os adultos. Então, nomear o que está ocorrendo, mesmo que eles não compreendam a complexidade do caso, dá segurança e demonstra respeito e atenção.
Evite esconder o assunto e prefira sempre dizer a verdade, especialmente quando envolve segredos como adoção, morte, desaparecimento e separação – que deixam o ambiente mais tenso e fazem com que a criança absorva esse clima.
Mantenha a calma e jamais deixe perceber a expressão de pânico para não preocupar a criança ainda mais. A postura para evitar o estresse é altamente recomendada, de acordo com o psicólogo e escritor Alexandre Bez. Quanto menos a criança estiver assustada, mais fácil será conversar com ela.
Também não é necessária uma conversa muito explicativa. Uma notificação já é o suficiente. No caso de separação, por exemplo, o ideal, segundo Aline, é chamar a criança para conversar, informar que tem algo muito importante a dizer e contar que o papai e a mamãe vão morar em casas diferentes, mas que continuam a amando muito.
Depois dessa frase, deve-se aguardar o comportamento da criança. Se ela perguntar algo, responda com sinceridade e da forma mais afetuosa e direta possível. Lembre-se: não é preciso falar mais do que eles conseguem compreender.
Nem sempre é fácil...
“Tudo estava bem em nossas vidas quando nossa filha Sophia, 8 anos, começou a emagrecer”, conta a mãe Cláudia Delfino. Na época, a menina tinha 2 anos e os familiares e amigos diziam que era normal, que era porque ela estava crescendo. Contudo, a mãe achou melhor tirar a cisma e procurou o pediatra.
A médica que acompanhava Sophia na época suspeitou que pudesse ser diabetes e, após alguns exames, veio a confirmação. “Foi difícil falar com uma criança de 2 anos que ela não podia mais comer alguns alimentos, pois isso poderia deixá-la doente”, conta a mãe.
A família teve que mudar toda a rotina, conversar com cuidadores da creche e, principalmente, ensinar Sophia a se proteger quando não estivessem por perto. “Ela não entendia porque tinha que usar a insulina, e só por volta dos 6 anos é que começou a fazer perguntas sobre a possibilidade de morrer por ser diabética”, lembra.
Cláudia relata que, quando essas perguntas começaram a aparecer, foi como se o seu mundo caísse de novo. “Não sabia como falar e até evitava tocar no assunto, até que uma vez, conversando com uma senhora na fila do banco, ela me disse para dizer a verdade sempre. Foi o que eu fiz: contei a verdade para Sophia e perguntei se ela poderia me ajudar a fazer a vida dela ter uma qualidade melhor. Essa experiência nos aproximou; hoje ela sabe a importância de falar sobre o diabetes e de se cuidar”, finaliza a mãe.
O que elas entendem
A criança não tem seu aparelho psicoemocional formado ainda. Portanto, não tem muitas condições de lidar com esse tipo de informação. Cabe aos pais fazê-lo da melhor forma e sem ansiedade. “Por essa razão, as informações devem ser dadas de acordo com a capacidade de entendimento da criança, a idade e o tipo de notícia”, explica a psicóloga Mariana Filippini Cacciacarro.
Crianças de até 3 anos não compreendem muito as situações. No entanto, a partir dos 4 anos, querem entender os motivos. E nas idades seguintes, já fazem elaborações mais refinadas, de acordo com a leitura que têm do mundo.
Por conta disso, ao tocar em algum assunto delicado, pergunte à criança o que ela entende sobre a questão. Muitas vezes a resposta dela dá um norte do que e como falar.
Evite justificar muito ou elaborar uma explicação muito longa para então entrar no assunto. “Use palavras de fácil compreensão, com uma forma como a criança lê o mundo”, recomenda a terapeuta infantil Monica Pessanha.
Por exemplo: se a criança presenciou uma cena imprópria para a idade dela, pergunte: “O que você viu?” e “O que acha que estava acontecendo?”. A partir daí, você saberá como falar e até onde ir – isso se a resposta dela já não for o suficiente e você só precisar concluir com um acolhedor “Foi isso mesmo”.
Evite, também, dar detalhes sobre o que aconteceu para não expor a criança a sentimentos e imagens mentais que ela não é capaz de dar conta sozinha. É importante abordar o assunto com naturalidade, validando os sentimentos e respondendo aos questionamentos feitos pela criança durante a conversa.
“No caso de ela se demonstrar satisfeita apenas com a informação de que ‘o vovô morreu’, por exemplo, deve-se respeitar isso e estar disponível para responder a quaisquer perguntas que ela queira fazer no futuro”, comenta Mariana.
Recurso eficiente
Uma boa dica é contar a notícia acompanhada de uma historinha: “Você terá que fazer isso ou aquilo, mas não se preocupe...”, ilustra Alexandre. Muitas vezes, nos preocupamos com os detalhes, quando o que a criança gostaria e consegue entender é que "o vovô está muito doente e agora precisaremos cuidar dele", ou que a "mamãe infelizmente morreu, mas nós te amamos muito e vamos cuidar de você".
“Não é fácil falar sobre doenças que podem levar à morte”, relata Cecília Borges. “Ainda dói muito, porque perdi meu filho Cauã quando ele ainda tinha 17 anos”. Quando a família descobriu que o menino tinha câncer no pulmão, todos acharam que seria apenas uma fase difícil e não falavam sobre o assunto.
Na época, Cecília achava que Júlio, o filho mais novo, de 6 anos, jamais entenderia a situação do irmão, e evitava conversar sobre a doença. “Até que ele começou a apresentar um comportamento agressivo na escola, e a orientadora nos aconselhou a procurar um psicólogo. Aos poucos, com a ajuda da profissional, fui descobrindo o quanto era importante falar sobre a possibilidade da morte, tanto com meu filho que estava doente, quanto o mais novo”, narra.
Mas ainda assim, sempre que a mãe se ausentava por causa das internações do Cauã, Júlio ficava triste, bravo e agressivo. O pai tinha que explicar a ausência com muita paciência e esperança de que ele compreendesse. “Quando o Cauã partiu, quem mais nos mostrou que estava entendendo o que aconteceu foi o Júlio que, mesmo bravo, dizia: ‘Mãe, Cauã agora vai ficar bem’", finaliza.
(Foto: Getty Images)
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