Greves paralisam mais de 40 mil trabalhadores no Rio
Eleições, Copa, inflação e a insatisfação com os sindicatos dão força aos movimentos
Rio - Mais de 40 mil trabalhadores privados e
do setor público estão em greve no estado. Somente na construção pesada,
são 27 mil operários de braços cruzados desde a última segunda-feira.
Nas instituições federais de ensino, 10 mil servidores
técnicos-administrativos aderiram à paralisação nacional. Ontem,
funcionários da UFRJ queimaram pneus em frente ao Centro de Tecnologia
na Ilha do Fundão.
Segundo o Sindicato dos Trabalhadores
em Educação da UFRJ (Sinturfj), o objetivo foi pressionar o governo a
reabrir negociação. Na Prefeitura do Rio, 500 servidores estão em greve.
Em Petrópolis, 2.200 motoristas e cobradores não deram expediente
ontem. Já nas obras do Parque Olímpico, são 2.500 trabalhadores parados,
levantando preocupações sobre atrasos no cronograma das Olimpíadas de
2016.
Operários das obras da Linha 4 do metrô fizeram passeata por melhores salários no Leblon
Foto: Alessandro Buzas / Agência O Dia
Ontem, operários atropelaram o acordo
feito entre o sindicato da categoria e a concessionária Rio Mais e se
recusaram a voltar ao trabalho. Na quarta-feira, audiência de
conciliação entre a Rio Mais e o Sindicato dos Trabalhadores nas
Indústrias da Construção Civil do do Rio (Sintraconst) havia determinado
a suspensão de 30 dias na paralisação, para que as partes chegassem a
acordo.
No entanto, cerca de 20% da mão de
obra cumpriu o trato. A maioria foi ao canteiro de obras ontem, mas se
recusou a trabalhar. A situação reforça a decisão do Comitê Olímpico
Internacional (COI) de intervir na preparação para os Jogos de 2016.
Ontem, o presidente da entidade, Thomas Bach, anunciou medidas para
maior controle na organização do evento. A RioMais informou que não
negocia mais com a classe. O imbróglio será resolvido na Justiça.
Fatores como a proximidade das
eleições e da Copa, o aumento da inflação e a insatisfação com a
representação dos sindicatos colocam combustível nos movimentos
trabalhistas. “Ano eleitoral é sempre espaço rico para pressionar.
Principalmente em setores dentro dos próprios sindicatos que fazem
oposição ao governo”, afirma o presidente da CUT-RJ, Darby Igayara.
Funcionários da UFRJ queimaram pneus em frente ao Centro de Tecnologia ontem na Ilha do Fundão
Foto: Divulgação
Ponto que chama a atenção é o
descolamento entre sindicatos e a base. A primeira expressão mais clara
do descontentamento foi a greve dos garis, seguida pela paralisação do
Comperj, em Itaboraí. Nos dois casos, trabalhadores se organizaram por
fora dos sindicatos.
A postura dos operários do Parque Olímpico, de
peitar a volta ao trabalho, é outra mostra de insatisfação. “Houve
criação de milhões de empregos que não se refletiram no aumento da
filiação a sindicatos. É sinal de desconforto, de dificuldade de
construir convergências em algumas categorias”, afirma o economista
Márcio Pochmann, presidente da Fundação Perseu Abramo.
5 minutos com Marco Aurélio Santana, professor da Uerj
O professor do Departamento de Sociologia e do
Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Antropologia da UFRJ, Marco
Aurélio Santana, acredita que o contexto econômico do país tem
contribuído para a ocorrência de movimentos trabalhistas, assim como a
eleição e a Copa do Mundo este ano.
Estamos diante de um ano de Copa do Mundo e de eleições. Esses dois fatores colocam gás nos movimentos trabalhistas?
R: No geral, sim. Todo ano eleitoral abre
possibilidades de demandas, por exemplo na área pública. Em setores,
públicos ou privados, ligados, por exemplo às obras direta ou
indiretamente voltadas para a Copa do Mundo, abrem-se também janelas de
oportunidades. A Construção Civil, muito aquecida neste cenário, além de
ser marcada tradicionalmente por questões salariais e duras condições
de trabalho, é um bom exemplo.
Na Economia, a inflação está alta e o desemprego, baixo. Em que medida esse cenário influencia as greves?
R: No caso do Rio de Janeiro, com os preços que
estamos experimentando, acaba tendo claros impactos nos salários. O
desemprego baixo não suprime, em alguns casos até cresce, a questão da
qualidade destes empregos e dos ganhos deles advindos. Assim, surgem
questionamentos e demandas nos níveis salariais e das condições de
trabalho, por exemplo.
Há falta de representatividade das lideranças sindicais?
R:No plano mais geral, em alguns casos, os
sindicatos têm tido dificuldade de manter ou ampliar suas bases. O caso
dos trabalhadores mais jovens tem sido um problema neste sentido. Os
sindicatos encontram dificuldades no setor da sindicalização. Os jovens
acabam mantendo pouca identidade com este tipo de representação
fundamental para a garantia dos direitos dos trabalhadores.
Avanço nas negociações
Parados desde segunda-feira, operários da
construção pesada do Rio aceitaram o reajuste de 9% proposto pelos
patrões e deram um passo rumo ao fim da greve. Em assembleia ontem, eles
acataram o percentual, mas ainda querem aumento de R$ 300 para a cesta
básica e o correção no valor da hora extra. Se o sindicato patronal
aprovar a contraproposta dos trabalhadores, eles fazem assembleia hoje
para decidir se encerram ou não a paralisação.
O Tribunal de Contas da União (TCU) decidiu
convocar a presidenta da Petrobras, Graça Foster, e o ex-presidente da
estatal Sergio Gabrielli para prestar esclarecimentos sobre um contrato
que a estatal firmou com a empresa MPE, para execução de obras de
tubulação no Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro (Comperj), em
Itaboraí.
A ministra do TCU Ana Arraes disse que a
diretoria da estatal foi “omissa”, ao não punir a empresa MPE, por conta
de atrasos recorrentes na execução dos trabalhos nas tubovias. A greve
de 40 dias dos operários da construção do complexo está entre os motivos
dos atrasos. Ocasião da qual os trabalhadores acusaram a Petrobras de
não fazer qualquer interferência nas negociações com os consórcios.http://odia.ig.com.br/noticia/economia/2014-04-11/greves-paralisam-mais-de-40-mil-trabalhadores-no-rio.html