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Boa tarde,
Encaminho em anexo o artigo Ser Versus Fazer, do
Presidente do Conselho Regional de Administração do Rio de Janeiro - CRA-RJ,
Adm. Wagner Siqueira, que reflete sobre dois paralelos: o individuo e as
corporações.
De acordo com o autor, as pessoas são maiores do que os seus
trabalhos. Mas as organizações se recusam a compreender e a aceitar tal
evidência. Elas querem números e resultados. Diariamente, milhares de
trabalhadores sacrificam o tempo de ficar com suas famílias e amigos em prol de
um trabalho massivo que não lhes permite ter criatividade. O adm. Wagner
Siqueira se apoia nas ideias de Max Weber e Kant para frisar o impacto social
desse comportamento.
Att.
Chandra Santos
Assessoria de Imprensa do CRA-RJ
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Ser versus fazer
Para os existencialistas a dissonância SER X TER seria a marca
definitiva do homem moderno em busca do auto-encontro e da felicidade.
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Mal sabiam que o mundo das
organizações logo suscitaria, nestes primeiros anos do Século XXI , uma nova disjuntiva
SER X FAZER , que, apesar de ser uma variação em torno do mesmo tema,
apresentar-se-ia de forma bem mais dominante, profunda e penetrante nos
corações e mentes daqueles que se dedicam ao trabalho no universo das
corporações.
O valor pessoal de alguém não
deriva quase que exclusivamente das realizações constantes de seu curriculum
vitae, mas de todas as dimensões de sua existência, que o tornam um indivíduo
único e singular.
A cultura das organizações, no
entanto, nos impele à superestimação do valor do indivíduo pelo que ele faz e
não valoriza de forma adequada quem ele é.
As pessoas são muito maiores do
que os seus trabalhos. Mas as organizações se recusam a compreender e a
aceitar tal evidência axiomática. Sacrificamos nossas famílias e as comunidades
sociais por privilegiar desmesuradamente o trabalho. Isto é ótimo para a
organização, mas péssimo para a pessoa.
Permitimos que códigos de ética
e de moral sejam amiúde violados para satisfazer as exigências de uma
organização inserida num mundo de competição desenfreada. Paulatinamente, no
entanto, assimilamos tais valores como se fossem nossos e passamos de forma
inconsciente a compartilhar como indivíduos das mesmas atitudes e
comportamentos.
Ao relativizarmos a ética
empresarial da ética individual, fraturamos a consistência do código de
conduta pelo qual pautamos as nossas vidas. O indivíduo como pessoa que aja
moralmente inspira-se no que Max Weber chamou de ética da convicção. Já na
empresa, passa a se referenciar pela ética de resultados. São, evidentemente,
duas formas incompatíveis entre si de julgar o que é bom e o que é mau: ou se
adota uma ou se adota outra. Por ética de convicção se entende a que julga e
avalia as ações em seus precedentes, pelo que lhe está subjacente, ou seja,
tudo o que é anterior à própria ação, como os princípios, as regras e os
códigos morais. Por exemplo: os Dez Mandamentos divinos. As ações são boas ou
más pelas correspondências que guardem com esses referenciais básicos de
conduta pessoal.
Mas é também possível julgar
uma ação com base não no que a precede, mas pelos seus resultados. Assim, a
ética de convicção e a de resultados são dois juízos inteiramente distintos
e, muitas vezes, contraditórios sobre a mesma ação empreendida ou a ser
implementada. Ela pode ser má em relação aos princípios e boa em relação aos
resultados. E vice-versa. Sobre que critério deve agir o executivo?
Geralmente, quando se fala de
ações empresariais imorais ou aéticas há a inspiração de que os fins
justificam os meios. O importante são os resultados, pouco importando os
princípios feridos para a sua consecução. É claro que tais atitudes não são
declaradas, mas praticadas. O executivo que obtém grandes resultados nos
balanços das organizações costuma dar muito pouco valor ou fidelidade à ética
de convicção, o que o faz perder pouco a pouco a sua própria identidade como
pessoa para assimilar a da empresa. Muitas vezes até por resistir à própria
despersonalização, muitos passam a conviver no cotidiano com o dilema
insuportável do Dr. Jekyll e Mr. Hyde, em O Médico e o Monstro.
Nem sempre as qualidades do bom
trabalho são as mesmas do bom caráter. Nem sempre um executivo de sucesso
pode oferecer aos filhos o seu comportamento no trabalho como paradigma de
como eles devam se conduzir eticamente em suas vidas. As qualidades do bom
trabalho dos pais não são as do bom caráter que se deseja ensinar aos filhos.
E como comumente hesita em transmitir esse legado moral pervertido,
assiste-se à fratura da identidade ética do indivíduo como pessoa em sua família
e como executivo em sua organização.
A essência do ponto de vista moral das organizações exageradamente competitivas dos tempos presentes reside numa forte aversão às tentativas de negar aos seres humanos seus direitos à soberania moral. Elas podem ser acusadas dessa violação pela própria maneira como buscam doutrinar seus colaboradores e liquidar as organizações concorrentes, vistas em geral como inimigas. Como facções, os colaboradores de organizações concorrentes tendem a estigmatizarem-se reciprocamente.
Guardadas as devidas
proporções, apenas como figura de retórica por analogia, os colaboradores de
organizações rivais comportam-se como habitantes de áreas faveladas das
grandes cidades brasileiras em que as facções criminosas impõem rótulos aos
moradores do comando prevalecente da comunidade a que pertencem, uns em
relação aos outros, desenvolvendo-se preconceitos, restrições, aversões e
estigmas.
Imagine-se, por exemplo, o
constrangimento de alguém, pertencendo a uma determinada indústria de refrigerantes
ou de cervejas, curtindo numa roda de amigos saborear as delícias de beber os
produtos da concorrente. Como se sente e como é percebido pelos demais?
A especificidade da área de
atuação da organização, a natureza de sua atividade econômica, as características
do grupo que a integra e outros elementos psicossociais influenciam, mas não
determinam a vida das pessoas. Os indivíduos são mais concretos do que as
organizações às quais pertencem. A liberdade de pensamento é primordial à
natureza do ser humano.
Apesar desses aspectos
perecerem evidentes, é necessário coragem e muita convicção para expressá-los
no mundo globalizado que hoje vivemos, um mundo que enfrenta a angústia do
pensamento único sustentado por ciências sociais comprometidas fundamentalmente
com a manutenção de uma ordem mundial injusta, a serviço da aristocracia
financeira.
Para Kant o único comportamento
humano que podemos almejar ser adotado por todos, sem contradições, é a
benevolência ou a solidariedade. Este é um valor intrínseco, mesmo que não
redunde em bons resultados. Agir de modo solidário significa ver cada ser
humano como um fim em si mesmo e não, simplesmente, como um meio para
alcançar outros fins. Somente são livres os seres humanos que conseguem
verem-se reciprocamente como fins e não como meios, e agem de acordo com os
seus princípios e não em função de seus temores ou paixões de uns em relação
a outros, o que sempre lhes restringe a liberdade.
As pessoas e suas trajetórias
existenciais são importantes em quaisquer dimensões em que atuem na vida
social. Assim, sempre que generalizamos sobre elas ou tentamos
estandardizá-las, somos culpados por ação totalitária. Porém, não estamos
conseguindo confrontar hoje esse lugar-comum da realidade da vida das
organizações que, transformadas em seitas em sua ação corporativa,
bombardeiam indiscriminadamente a todos com a vastidão obscura da hegemonia
do pensamento único.
Os indivíduos não somente têm o
direito, mas a obrigação de se desenvolverem como pessoas. A vida não tem
sentido se não for assim. Ninguém deve buscar nas organizações apoio
emocional de que necessita para ser feliz ou para assegurar o seu equilíbrio
existencial. Nem mesmo a mais evidente característica da personalidade de uma
pessoa é predeterminada. Todos têm direito ao livre arbítrio de escolher o
seu destino. Mas nem todos pensam e agem assim. Os grupos a que cada um
pertence tentam traçar e definir o destino de seus integrantes, constrangendo
a todos a fazer o que lhes parece como grupo ser o mais conveniente e adequado
para os interesses do coletivo. Os membros dessas organizações não conseguem
deixá-las porque a elas aderiram por livre e espontânea vontade. Passam a ser
prisioneiros voluntários de uma realidade que preenche os seus vazios
existenciais.
As pessoas mais propensas
a se enredarrem em tal situação profissional têm originalmente
tantas carências como indivíduos que são naturalmente atraídos pela
identificação com o grupo de trabalho e pelo preenchimento por parte da
organização de suas necessidades mais sentidas. Tal identificação se efetiva
por jogar no time, participar de atividades importantes, ser leal aos
companheiros, ser reconhecido etc. De fato, muitas vezes tal contexto
acolhedor nada mais é do que a resposta ao anseio de pertencer a algo que as
ajude a suprir necessidades humanas insatisfeitas.
O indivíduo passa a ser
prisioneiro do estratagema que engendrou para si próprio. Talvez os
verdadeiros prisioneiros, apenados nos presídios, tenham vida bem mais suave
do que aqueles que trabalham na maioria de nossas organizações empresariais.
Tanto na prisão como nos
ambientes de trabalho você passa a maior parte de sua vida útil enclausurado
em cubículos, que na empresa modernamente são chamadas de estação de
trabalho.
O preso tem 3 refeições completas
todos os dias. Você, quando muito, tem um intervalo para almoço e tem que
pagar por ele.
O preso pode receber liberdade
condicional por bom comportamento. Você será recompensado pelo bom desempenho
com uma carga maior de trabalho.
Na prisão, o encarcerado pode
assistir televisão, ler jornais, tomar banho de sol. Você será demitido se
fizer o mesmo.
O preso pode participar de
programas internos de forma voluntária. No trabalho, você não escolhe o que
faz e não pode se furtar a fazê-lo.
Aos presos é permitido receber
parentes e amigos, às vezes até para visitas íntimas. Você na empresa tem
dificuldade até de usar o telefone para ligações particulares e muitas vezes
o seu correio eletrônico é censurado.
Na prisão todas as despesas são
pagas pelos contribuintes, sem qualquer contraprestação por parte dos presos
pelos serviços que lhes são assegurados. Você paga todas as despesas para ir
trabalhar e ainda são deduzidos de seu salário diferentes tributos para
sustentar as despesas dos presídios.
Os presos são algemados sempre
que vão a algum lugar, como prestar depoimentos à Justiça. No trabalho você
está sempre algemado pelas limitações impostas pelas regras e interesses dos
que detêm o poder nas organizações.
Na China ancestral havia o
hábito de calçar permanentemente as meninas com sapatos de ferro, mantendo-os
até que elas alcançassem a idade adulta. Nessa idade, os pés não podiam mais
crescer, pois já passara a fase do desenvolvimento. Elas se livravam dos
sapatos, mas ficavam para toda a vida com os pés atrofiados. A natureza era
violentada à custa de discutíveis padrões de estética e beleza impostos pela
cultura prevalecente à época.
Mais brutais ainda do que
aqueles chineses ancestrais, muitas organizações modernas se constituem em
verdadeiras tenazes ou fôrmas no cérebro das pessoas, limitando a sua
consciência e capacidade de compreender o ambiente que as cerca. A
convivência cotidiana com valores distorcidos escraviza o ser humano e viola
a sua natureza.
Em verdade, um número crescente
de organizações se constituem em sistemas totalitários empenhados em
aprisionar a vida e o pensamento de seus membros numa camisa de força que os
leva ao caminho de retorno à servidão, transformando-os hoje nos modernos
servos da gleba, semelhantes aos do regime feudal da Idade Média.
Jean Jacques Rousseau, em seu
imortal Contrato Social indaga: “O homem permanece livre, mas em todos os
lugares é um prisioneiro... Como esta mudança acontece? Eu não sei. O que
pode torná-la legítima? Esta questão eu espero ser capaz de fornecer uma
resposta”. Infelizmente, Rousseau não conseguiu equacionar esse paradoxo. Até
hoje a humanidade busca a solução, sem ainda a encontrar. Ao contrário, na
medida em que o ser humano mais dispõe de recursos e de facilidades
inimagináveis para o seu bem-estar, paradoxalmente mais parece ficar
escravizado a outros homens ou a outras circunstâncias totalitárias.
Bibliografia: Seitas
Organizacionais, Wagner Siqueira, Fundo de Cultura Editora, 2005, RJ.
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Adm. Wagner Siqueira
Presidente
CRA/RJ Nº 01-02903-7
Presidente
CRA/RJ Nº 01-02903-7
