Perto de completar uma década, a Lei nº 10.639 quase não saiu do
papel. Ela tornou o ensino de história e cultura afro-brasileira
obrigatório nos currículos do ensino fundamental e do ensino médio. Isso
implica tratar da história da África, a luta dos negros no Brasil e
suas contribuições para o desenvolvimento do País nos diferentes níveis
de ensino.
Colocá-la em prática significa não só mudar currículos
para tratar o tema de diferentes maneiras nas escolas, mas formar
professores para isso. As recomendações e diretrizes do Ministério da
Educação e do Conselho Nacional de Educação nesse sentido são numerosas,
mas as duas frentes não fazem parte da rotina
nas escolas e nas universidades.
Ainda há poucos projetos sendo executados nas escolas e a
formação não está nos currículos dos professores. Levantamento obtido
pelo iG
mostra que, na maioria das universidades e institutos federais do País, disciplinas que tratam das relações étnico-raciais não são oferecidas
e, quando existem, têm caráter optativo.
Estudantes do Centro de Ensino Médio 1 do Gama
elogiam o trabalho feito pelas professoras de História para discutir a
história dos negros
Em paralelo, os recursos destinados a financiar ações em
escolas e universidades sobram nos cofres públicos. De acordo com o Siga
Brasil, sistema de informações sobre orçamento público, pouco mais de
11% da verba reservada para projetos educacionais que promovam a
igualdade racial em 2012 foram usados até o momento.
Leia também: Número de escolas quilombolas cresce no Brasil
De acordo com o relatório de novembro da Lei Orçamentária
Anual (LOA), no início de 2012, o montante destinado às ações
educacionais para o tema era de R$ 1,3 bilhão. Foram executados R$ 149
milhões (11,5% do total). Além desse total, outros 126 milhões foram
comprometidos com as ações, mas não chegaram a ser pagos até este mês.
A maior parte desses recursos foi gasta em ações na
educação básica (14,3% dos R$ 908 milhões destinados a isso). A verba se
destinou às ações de capacitação e formação inicial e continuada de
professores e profissionais e ao apoio das atividades em comunidades do
campo, indígenas, remanescentes de quilombos e crianças com deficiência.
Nas universidades, apenas 5% do orçamento foram usados.
Quase tudo dos R$ 390 milhões destinados ao ensino superior deveriam dar
suporte a entidades não-federais (R$ 350 milhões) e nada foi executado.
O recurso de fato aproveitado nessa etapa de ensino foi o dedicado às
bolsas de permanência. Dos 39 milhões, 49% foram gastos com os
programas.
No ensino superior: Há bolsas de permanência para negros
A dificuldade em utilizar os recursos, no entanto, não se
restringiu à área educacional. Os dados mostram também que apenas 9,56%
dos R$ 1,9 bilhão destinado à igualdade racial foram gastos até
novembro.
Burocracia X falta de projetos
Na opinião do técnico em gestão educacional Antonio Gomes
da Costa Neto, que realizou levantamentos para verificar o cumprimento
da lei 10.639 no orçamento e junto às universidades, a sobra de recursos
é a prova de que a aplicação da lei engatinha. “Os recursos não são
poucos, mas não estão sendo gerenciados como deveriam. As secretarias
deveriam criar mais programas e os gestores, induzi-los”, afirma.
Para Ana Marques, coordenadora de Educação em Diversidade
da Subsecretaria de Educação Básica do Distrito Federal, a burocracia
“emperra” a utilização dos recursos. “O dinheiro está lá, mas, às vezes,
ele é fictício, porque precisamos passar por caminhos muito complicados
para chegar até ele”, critica.
A Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização,
Diversidade e Inclusão (Secadi) do Ministério da Educação afirma que há
universidades e projetos que aplicam bem os recursos. “As atribuições
contidas do MEC contemplam: promover, de forma colaborativa com Estados,
municípios, instituições de ensino superior e entidades, a formação de
professores e a produção de material didático para atendimento da lei e
criar mecanismos de supervisão, monitoramento e avaliação do plano de
implementação da lei. Há experiências exitosas.”
Esforços individuais
A Lei 10.639, de janeiro de 2003, determinou que o
conteúdo referente à história e à cultura afro-brasileira e africana
seria assunto de todos os currículos escolares da educação básica,
“especialmente” nas disciplinas de artes, literatura e história. Em
2008, a Lei 11.645 deu a mesma orientação para a temática indígena. O
termo “especialmente”, no entanto, se tornou quase exclusivamente.
Nas universidades: Disciplina sobre educação étnico-racial não está nos currículos
Na prática, coordenadores e professores contam que o
conteúdo só aparece nessas disciplinas. Quando aparece. Depende de
iniciativas isoladas, de professores sensíveis ao tema. Em geral,
negros. “Geralmente, a iniciativa parte de um professor negro. No
imaginário social, quem tem de tratar de negro é negro. A lógica não
pode ser essa”, afirma Ana Marques. A coordenadora do Distrito Federal
acredita que falta muito para a lei se tornar realidade nas escolas.
“A aplicação da lei não aconteceu. As universidades não
cumpriram as mudanças na formação e as escolas só falam do negro no Dia
da Consciência Negra”, comenta Ana Marques. A data foi instituída pela
lei 10.639 e é comemorada nesta terça, 20 de novembro. Para muitos
professores, Ana ressalta, não há necessidade de debater o tema. “A
primeira e maior dificuldade ainda é a ideia de que temos uma democracia
racial”, diz.
Euterlúcia Souza e Shirley Cunha, professoras de história
do Centro de Ensino Médio 1 do Gama, no Distrito Federal, concordam. No
colégio, que tem uma das práticas mais duradouras na área, só as duas
cuidam dos projetos que incorporam a lei. As duas são negras. “Nosso
sonho é que essa fosse uma preocupação da escola e não de nós duas”,
desabafa Euterlúcia.
No CEM 1, as três séries do ensino médio têm projetos
sobre o tema. Mas a intensidade da conversa sobre essas relações cresce
no 3º ano. Durante os dois anos anteriores, a tentativa das professoras,
que contam com o apoio de alguns docentes da filosofia, português e
artes, é trabalhar a identidade dos jovens. Eles são convidados a pensar
em suas origens e seu futuro. No 3º ano, um grande seminário é
promovido durante dois dias sobre o tema.
“Nós buscamos trazer conhecimento para a escola. Mas é
muito difícil conseguir verba para o material, o lanche. Mas tem dado
certo”, conta Shirley. Euterlúcia lembra que a escola se preocupa em não
fazer do encontro apenas uma festa. “O trabalho não pode ser pontual.
Precisa deixar um legado para esses estudantes e a escola”, ressalta.
Pelo jeito, o objetivo das professoras tem sido atingido.
Estudantes do terceiro ano garantem que muita coisa mudou na vida deles
depois do projeto. Arthur Dias Bernardo, 17, conta que não concordava
com as cotas, carregava preconceitos, faltava informação. “Eu não tinha
conhecimento e agora tenho”, diz.
Izabella Vieira, 16, defende que outras disciplinas
também insiram o tema em suas aulas. Para Thaylinne Lima, 17, o assunto
não deveria ganhar visibilidade só nessa época do ano e os seminários
deveriam ser estendidos para as outras séries. “A gente deveria discutir
preconceito e racismo desde a infância, para chegarmos mais maduros no
ensino médio”, afirma Catrina Nonato, 17.
Maria Clara Aragão Alves, 17, lembra que não só a
escravidão conta a história dos negros. “Não se fala muito da cultura
que eles nos deixaram. Por isso a lei também é importante”, diz.
A Secretaria de Educação do Distrito Federal criou, em
dezembro de 2011, uma coordenação para cuidar do tema da diversidade. O
grupo elaborou orientações para as escolas e tem realizado cursos de
formação. A adesão, no entanto, ainda é baixa. De seis turmas abertas
para um curso sobre o tema, apenas duas foram preenchidas este ano.
“Eles reclamam de formação, de material, mas cada vez isso é mais
oferecido. Esperamos avançar”, conta Ana.
Estudantes
contam que aulas "mudaram tudo": diminuíram preconceitos e ajudaram a
muitos encontrarem a própria identidade . Foto: Alan Sampaio / iG
Brasília http://ultimosegundo.ig.com.br/educacao/2012-11-20/so-11-da-verba-de-projetos-educacionais-para-igualdade-racial-foi-usada.html