Um domingo qualquer. A mesa de família
estava farta. Minha avó havia retirado a lasanha do forno, com a ajuda
de um pano de prato, estampado com desenhos de cerejas. Meu primo tinha
acabado de colocar sal na minha Coca-Cola.
Meus tios falavam alto, tomavam cerveja como se tivessem acabado de
chegar do deserto e, como sempre, contavam as mesmas piadas sem graça,
fazendo trocadilhos com o pavê que ainda nem havia saído da geladeira.
As tias falavam mal das noras que, por sua vez, maldiziam os maridos e
em meio a esse clichê familiar, e minha mãe me perguntava
repetitivamente o motivo pelo qual eu havia passado a noite toda com o
celular desligado. Eu já estava atordoado no meio daquele caos e sem
pensar gritei: “Eu não atendi o celular porque estava no motel. Isso
mesmo, fazendo sexo selvagem em uma cadeira erótica!”.
A lasanha foi ao chão. Meu primo, que
vinha correndo, escorregou naquela lava borbulhante à base de creme de
leite e foi deslizando de bunda até chocar-se violentamente contra o
fogão. Minha prima, de sete anos, perguntou para mãe o que é uma cadeira
erótica. Meus tios olharam para mim com cara de orgulho e nunca mais
disseram publicamente que eu tinha calos na mão. Eu estraguei o almoço e
me coloquei de castigo por livre e espontânea vontade. A família
chocada comeu miojo.
Concordo que eu não deveria ter contado
minha façanha libidinosa em pleno almoço tradicional de domingo, muito
menos precisava ter gesticulado daquela forma perante minha família toda
como se eu fosse o Alexandre Frota no cio, depois de comer 20 ostras em
noite de lua cheia. Mas, será que em pleno século XXI o mundo não anda
acanhado demais quando o assunto é o tal do vai e vem mais gostoso que
existe? Será que as pessoas têm mesmo que continuar arregalando os olhos
todas as vezes que dizemos algo tão natural como a palavra “boquete”?
Será que as senhorinhas precisam mesmo continuar engasgando com a sopa,
toda vez que nos ouvem detalhando as posições de um dos nossos
passatempos preferidos? Será que a humanidade, infelizmente tão cheia de
maldades impublicáveis, precisa mesmo ficar preocupada em publicar
coisas relacionadas a uma bondade gostosa dessas?
Vamos fazer um pequeno exercício de
retrospecção para desvendar a real necessidade dessa imensa tarja preta
que insiste em fazer você falar da previsão do tempo, quando na verdade
está sedento por papos calientes. Preciso que se esforce e
tente lembrar como foi o dia da sua concepção… Conseguiu? Claro que não.
Mas, não se preocupe, pois eu estou aqui para te ajudar nesse processo e
afastar qualquer possível mérito da tal cegonha na sua aparição, neste
mundão. Já que você era apenas um ensacado espermatozóide, metido a
Michael Phelps e não conseguiria nunca se lembrar desse início safado,
vou te ajudar com uma pequena, porém, assertiva suposição dos fatos que
lhe trouxeram até aqui: Era inverno e naquele dia a sua mãe
propositalmente havia escolhido uma calcinha fio–dental, quase
invisível. Será que já existia esse acessório na época? Enfim, esse
detalhe não importa, nem o assunto que ela conversou com seu pai
enquanto eles dançavam ao som do Barry White, de rosto colado, pois, de
repente, os dois já estavam ali, atracados como faria qualquer mamífero
cheio de tesão (vi isso no Discovery Channel), estavam nus e seu pai
colocou o pênis, pau, pinto, Bráulio, piroca em estado de ereção dentro
da vagina, perereca, perseguida, periquita da senhora sua mãe e lá ele
ficou, quer dizer, ele saiu, ou melhor, ele ficou e saiu até que…Tcha
nananam…deu uma bela e revigorante gozada e “Voilà”! Depois de nove
meses sua mãe viu o resultado – e esse é você.
Agora, me diga sem pensar muito: existe
algo mais natural nesta galáxia do que o sexo? Pense bem. Você é um
fruto bem sucedido dele. Você é uma gozada que deu certo, um
espermatozóide vencedor e deve tudo que tem hoje ao ato sexual que
muitos teimam em chamar de sacanagem. Odeio esse termo. Sacanagem mesmo é
achar normal passar o dia todo falando mal dos outros e acreditar
cegamente que falar de fetiches é o mesmo que carimbar seu passaporte
para o inferno. Sacanagem é viver fodendo os outros, no sentido
lastimável da palavra, e achar que foder no sentido sexual não pode ser
dito nem mesmo numa mesa de bar. Sacanagem é a falta de educação, de
caráter, de humildade, de sensibilidade, de amor, de carinho, de tudo,
menos de sexo. Esse sim deve sobrar nas falas, frases, camas, filmes,
livros, blogs, moitas e em cada pedaço deste planeta.
Entendo que você talvez tenha vergonha
de compartilhar este texto, pois hoje em dia, até as avós têm perfil no
Facebook, mas, sinceramente, sacanagem, e vergonha de verdade, é ter
vergonha de falar sobre o bom gosto que une a humanidade em um só gemido
– o sexo.