A Justiça Federal em Mato Grosso do Sul
suspendeu a decisão liminar que determinava a expulsão de
indígenas guarani-kaiowá da Fazenda Cambará, na cidade de Iguatemi, no
Mato Grosso do Sul. A decisão da desembargadora Cecília Mello atende a
pedido da União e suspende ainda a multa de R$ 500 ao dia fixada pela 1ª
Vara Federal de Naviraí.
A magistrada, porém, limita a ocupação
indígena na fazenda Cambará a apenas um de 760 hectares totais da
propriedade, ou seja, o equivalente a 10 mil metros quadrados, e apenas
até que seja feita pela Fundação Nacional do Índio (Funai) a demarcação
de uma reserva para a comunidade Pyelito Kue. Na última semana, os 170
guarani-kayowá ameaçaram cometer suicídio coletivo caso fosse levada
adiante a decisão de reintegração de posse solicitada pelo fazendeiro
Osmar Luiz Bonamigo, ameaça que, segundo a Funai, não é real, e decorre
de uma interpretação equivocada das declarações dos líderes da
comunidade.
Na sentença, a desembargadora lamenta
ter de definir sobre um conflito que teria de ser balizado pelo Poder
Executivo, sem que o Judiciário tivesse de se imiscuir na questão.
Cecília Mello adverte que os dramas dos indígenas e do proprietário que
pode ter sido enganado ao comprar as terras entram em choque, e nenhum é
maior que o outro. Com isso, diz, sua sentença teve de tentar
equilibrar os dois lados, o que levou a limitar a área na qual os
guarani-kaiowá poderão circular.
“O que se apresenta é um conflito de
relevância social indiscutível e não um embate sobre meros interesses
contrapostos, não sendo competência do Poder Judiciário substituir o
Estado para prover as necessidades de um segmento da população que não
foi atendido pela falta de implantação de políticas públicas
específicas”, argumenta. “A inércia do poder público e a morosidade do
procedimento administrativo contribuem para provocar tensões e conflitos
entre índios e fazendeiros, restando ao Poder Judiciário responder ao
embate apresentado.”
Reuniões
Uma comissão que
representa a comunidade está hoje em Brasília para uma série de
reuniões. O tema está sendo debatido pelo Conselho de Defesa dos
Direitos da Pessoa Humana (CDDPH), presidido pela ministra Maria do
Rosário, da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República, e
pelo ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo. O debate é acompanhado
também pelo advogado-geral da União, Luís Inácio Adams, titular do órgão
responsável pelo recurso apresentado à Justiça Federal.
No começo da noite, a Comissão de
Direitos Humanos da Câmara recebe os indígenas para um debate sobre o
tema. A deputada Erika Kokay (PT-DF) solicitou que se realize uma viagem
à região para acompanhar a situação dos afetados pela decisão judicial e
monitorar o processo de demarcação de terras.
Na última semana, a Funai informou que
trabalhava para reverter a decisão e “que está acompanhando a situação e
presta atendimento e assistência jurídica à comunidade Guarani e Kaiowá
acampada na área”. A Secretaria Geral da Presidência acrescentou que os
indígenas daquela região estão inseridos em um programa de
monitoramento da Força Nacional de Segurança para evitar atos de
violência contra eles. “A questão dos Guarani Kaiowá é prioritária para o
governo federal que vem apoiando as comunidades através de ações de
segurança alimentar, saúde, segurança pública e reconhecimento
territorial através de seis Grupos de Trabalho que estão em campo”,
acrescentou o governo.
Já o governador de Mato Grosso do Sul,
André Pucinelli, criticou hoje, durante visita ao Senado, a atuação da
Funai. “A Funai é um órgão que seu fosse presidente da República já o
teria extinto pela ineficiência, pela incompetência. Quem sustenta os
índios no Mato Grosso do Sul, quem lhes dá cestas de 27 kg de gêneros
alimentícios a cada 45 dias, é o governo do estado com seus próprios
recursos. A Funai não faz porcaria nenhuma.”
Segundo telegrama de maio de 2009
revelado hoje pela Agência Pública, o governador fez pouco caso da
situação dos indígenas durante visita do cônsul-geral dos Estados Unidos
em São Paulo ao Mato Grosso do Sul. Thomas White percorreu o estado
durante quatro dias, e relatou o desdém com que Pucinelli tratou a
questão. “O governador Puccinelli zombou da ideia de que a terra, num
estado como o Mato Grosso do Sul, cuja principal atividade econômica é a
agricultura, poderia seja retirada das mãos dos produtores que cultivam
a terra há décadas para devolvê-la aos grupos indígenas”, lê-se.
Fonte: Rede Brasil Atual