A união entre ideais políticos, riffs de guitarra e os sonhos da juventude que deseja construir um novo mundo é uma constante desde a segunda metade do século passado. Além de ser uma manifestação político-cultural por si só, ao representar a rebeldia e a personalidade dos jovens de diversas gerações, o rock já militou explicitamente nas letras e posicionamentos de personagens como John Lennon, Bono Vox, Rage Against the Machine, Renato Russo, Cazuza, Gil, Caetano e muitos outros roqueiros de diversas épocas, cada qual com suas ideologias e propostas.
Neste último fim de semana, a chegada da turnê do músico Roger Waters (ex-Pink Floyd) à América Latina revelou que essa sintonia continua forte. Antes de realizar duas apresentações memoráveis no Chile (nos dias 2 e 3), o roqueiro se reuniu com a lider estudantil Camila Vallejo, um dos símbolos da enorme mobilização da juventude local que se inicou em 2011. Waters chegou a dizer: “Hey Piñera, leave the kids alone!” (Ei Piñera, deixe os garotos em paz), um trocadilho da letra da canção Another Brick in The Wall – talvez o maior sucesso do Pink Floyd – mandando um recado para o presidente do país Sebastian Piñera.
Mobilizados em defesa da educação pública no país, os estudantes já receberam diversos apoios internacionais, inclusive da UNE, que recebeu Camila Vallejo em uma grande passeata em Brasília, no último mês de agosto. Segundo a líder, o encontro com Waters foi muito importante. “O muro existe em todas as partes do mundo, e o bom é que Waters demonstrou em sua música que é possível combatê-lo e destruí-lo”, acrescentou a estudante, em referência a The Wall, o épico disco do Pink Floyd lançado em 1980. Camila presenteou o músico com seu livro “Podemos mudar o mundo”, um relato sobre os recentes episódios no Chile. “
Durante entrevista coletiva em Santiago, Waters se mostrou compreensivo com as reivindicações dos estudantes. “Sei que existe o sentimento de que não há oportunidades igualitárias no Chile e que o sistema de educação é ruim, por isso entendo perfeitamente o protesto dos jovens”, declarou o artista. Ele protestou publicamente para que o governo garantisse “acesso igualitário à educação para cada chileno”. No último mês de outubro, o cantor já havia manifestado seu apoio ao movimento por meio do Twitter.
Os shows no Estádio Nacional de Santiago tiveram projeções e homenagens a desaparecidos políticos da ditadura chilena, jovens e outros cidadãos que foram assassinados pelo regime de Augusto Pinochet. Uma das apresentações foi dedicada a Victor Jara, uma das vítimas mais conhecidas da ditadura no país. “Dedico este show a ele e a todos mortos, desaparecidos e vítimas da tortura. Nós vamos lembrá-los”, disse.
Ao que parece, a pauta política continuará em evidência durante a turnê de Roger Waters pela América Latina. Na Argentina, onde os ingressos já estão esgotados, o grande tema deve ser a disputa entre o país e a Inglaterra em torno da região das Malvinas, motivo de guerra no ano de 1982. Apesar de inglês, Waters já se revelou taxativo ao defender a soberania do país sul-americano nessa questão. “As Malvinas são argentinas”, disse.
A turnê de Roger Waters chega ao Brasil no fim deste mês. Nos dias 25 e 29, os shows acontecem em Porto Alegre e no Rio de Janeiro, respectivamente. Nos dias 1º e 4 de abril, ele se apresenta em São Paulo.
Artênius Daniel