Pacientes relatam recuperação da mobilidade, da autonomia e da qualidade de vida após tratamento multidisciplinar
A popularização dos medicamentos para obesidade mudou o tratamento da doença, mas não eliminou a procura pela cirurgia bariátrica. No Rio de Janeiro, onde cerca de sete em cada dez adultos acompanhados pelo SUS estão acima do peso, o número de cirurgias feitas pelo SUS entre janeiro e agosto de 2026 já superou o total de 2025. Nos planos de saúde, o estado foi o terceiro do país em número de procedimentos em 2025. Os dados mostram que a cirurgia continua fazendo parte da estratégia terapêutica para pacientes com indicação.
Para o cirurgião Luiz Gustavo de Oliveira, coordenador do Programa de Cirurgia Bariátrica e Metabólica do Hospital Federal de Ipanema e diretor do Instituto Metabólica, no Rio de Janeiro, a escolha entre medicamentos, cirurgia ou a combinação de tratamentos precisa considerar as características de cada paciente, as doenças associadas e a história de vida.
“A obesidade é uma doença crônica e não existe um tratamento que funcione para todos. A cirurgia bariátrica é ainda a ferramenta mais eficaz e duradoura para a obesidade grave. No entanto, precisa estar inserida em um tratamento que envolva alimentação, atividade física e acompanhamento médico e psicológico”, explica.
Quando o peso começa a limitar a vida Foi a perda de funcionalidade que levou Cristiano Bichara Leal, 47 anos, a procurar a cirurgia. Com 1,82 metro de altura, chegou a 146,5 kg e percebeu que a obesidade já interferia até mesmo na capacidade de cuidar das duas filhas. Durante uma crise da caçula, que tem autismo e necessita de alto nível de suporte, Cristiano travou a coluna ao tentar ajudá-la e caiu no chão. A filha mais velha entrou em pânico e Cristiano não pôde ajudar nenhuma das duas.
“Naquele momento eu vi que estava sendo um entrave. Eu precisava fazer alguma coisa para me ajudar e poder ajudar minha família”, conta.
Depois da cirurgia, realizada em junho de 2024, ele chegou aos atuais 94,5 kg. Voltou a nadar e a praticar musculação, participou de uma maratona aquática e recuperou a mobilidade para brincar com a filha. Em dezembro de 2025, também realizou um sonho de infância que a obesidade vinha afastando há três décadas: conquistar o brevê de piloto. “Eu passei a ser uma pessoa funcional. Antes, eu demandava cuidados. Hoje eu consigo cuidar de alguém”, resume.
A dona de casa Rosângela Florentino de Sousa, 35 anos, chegou a pesar 145 kg e também percebeu que o excesso de peso limitava sua rotina e os cuidados com o filho. Mas sua decisão pela cirurgia foi diferente: antes de operar, passou um ano em acompanhamento psicológico, nutricional e praticando atividade física para ter certeza de que conseguiria seguir o tratamento. “Eu queria saber se teria capacidade de seguir tudo o que precisava depois da cirurgia”, conta.
Operada em junho de 2024, Rosângela hoje pesa 80 kg. Mantém uma rotina de exercícios de até duas horas por dia e continua em acompanhamento psicológico e nutricional. “É uma briga interna muito grande com a mente: comer ou não comer. Você tem que lutar com você mesmo”, afirma.
Andréa Ferreira, 51 anos, chegou à cirurgia depois de uma sequência de problemas de saúde. Tinha falta de ar, dores, dificuldade para caminhar e alterações de pressão e glicemia. A virada aconteceu após uma queda no banheiro, quando perdeu momentaneamente a sensibilidade das pernas, que já vinham formigando. Ela associa o sintoma ao excesso de peso e ao descontrole metabólico. “Eu falei: eu vou mudar essa situação”, lembra.
Andréa fez a cirurgia em agosto de 2024, quando estava com 124 kg. Hoje pesa 74 kg, se orgulha de vestir manequim 40, corre, caminha e já consegue completar provas de cinco quilômetros. Antes, evitava até o transporte público por causa das dores e da dificuldade para andar. Gastava muito com corridas por aplicativo para não precisar pegar ônibus.
“Hoje eu me sinto viva. Se sentir viva, se sentir bem, é maravilhoso”, diz.
Canetas emagrecedoras Os três pacientes também tiveram contato com medicamentos para emagrecimento. Cristiano e Andréa interromperam o uso por não conseguirem manter o custo do tratamento conforme as doses aumentavam. Andréa perdeu 10 kg com o medicamento e, ao interromper o uso, recuperou 20 kg. Cristiano relata experiência semelhante: recuperou o dobro do peso que havia perdido. O reganho de peso após a suspensão do medicamento é um fenômeno conhecido e reforça a importância do acompanhamento médico contínuo, qualquer que seja o tratamento.
Segundo a nutricionista Fernanda Mattos, do Instituto Metabólica, o tratamento da obesidade precisa considerar o paciente como um todo. “Perder peso é apenas uma parte do processo. Precisamos preservar massa muscular, corrigir deficiências nutricionais, trabalhar a relação com a comida e ajudar o paciente a construir hábitos que consiga manter ao longo da vida”, afirma.
Obesidade e cirurgias bariátricas No Rio de Janeiro, o SUS já registrou 832 procedimentos em 2026 até o fim de agosto, acima das 764 cirurgias realizadas em todo o ano de 2025. No Brasil, foram cerca de 9,8 mil procedimentos registrados até agosto e, até o fim do ano, devem superar as cirurgias de 2025. Na saúde suplementar, segundo a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), foram 4.849 cirurgias bariátricas no Rio de Janeiro em 2025, o que faz do estado o terceiro do país com mais procedimentos. No Brasil, foram 52.521 cirurgias por planos de saúde em 2025.
A demanda por cirurgias no SUS é alta. Dados da Secretaria de Estado de Saúde do Rio de Janeiro apontaram 14.389 pacientes aguardando cirurgia bariátrica em maio deste ano. O próprio Ministério da Saúde passou a estudar o uso de semaglutida em pacientes que estão na fila da cirurgia, reforçando que medicamentos e cirurgia podem fazer parte de estratégias diferentes dentro do tratamento da obesidade.
A preocupação em tratar a população, seja com canetas ou com cirurgia, é legítima. Segundo o Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional (Sisvan), cerca de sete em cada dez adultos acompanhados pelo SUS no estado do Rio de Janeiro estão acima do peso: 32% com sobrepeso; 22% com obesidade grau I; 10% com obesidade grau II; e 7% com obesidade grau III.
Sobre o Instituto Metabólica O Instituto Metabólica é um centro médico multidisciplinar especializado no tratamento da obesidade e da síndrome metabólica, com equipe formada por profissionais de diferentes áreas, incluindo cirurgia bariátrica, nutrição, psicologia, psiquiatria, endocrinologia e cirurgia plástica, no Rio de Janeiro. |