Daniel de Castro Barral apresentou na última terça-feira (25/08) no auditório da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) sua tese de doutorado em Saúde Coletiva pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Intitulada “Sob o olhar de Asclépio: discurso médico e masculinidades em Salvador da Bahia (1880–1930)”, a pesquisa investiga como a medicina participou da construção de determinadas ideias sobre homens e masculinidades na Salvador da passagem do século XIX para o século XX.
A partir da análise de teses de doutoramento médico produzidas no período e de artigos publicados na Gazeta Médica da Bahia, Daniel investiga como o discurso médico classificava corpos, comportamentos e modos de vida, estabelecendo parâmetros para aquilo que poderia ser considerado um homem saudável, moralizado e socialmente adequado.
A pesquisa parte de uma questão central: como a medicina contribuiu para produzir e legitimar determinados modelos de masculinidade?
O estudo demonstra que a medicina daquele período não se limitava ao tratamento de doenças. Ela também se apresentava como um campo capaz de estabelecer normas sobre os corpos e os comportamentos, participando da construção de um ideal de homem associado à juventude, saúde, racionalidade, autocontrole, produtividade e capacidade de contribuir para o projeto de formação da nação.
Nesse contexto, o controle de si aparece como um dos principais parâmetros de legitimidade da chamada masculinidade civilizada. O homem ideal deveria ser capaz de controlar seus desejos, seu corpo e seus comportamentos, tornando-se previsível, disciplinado, racional e produtivo.
Ao mesmo tempo, aqueles que não correspondiam a esses padrões poderiam ser classificados como desviantes ou degenerados.
Masculinidade, raça e o projeto de nação
Um dos aspectos de maior relevância da pesquisa é a relação entre masculinidade e raça.
A partir da chamada lógica da degeneração, o discurso médico analisado por Daniel produzia hierarquias entre corpos e comportamentos. Características associadas ao feminino ou à população negra poderiam ser interpretadas como sinais de degeneração, infantilidade, atavismo ou inferioridade.
A escolha de Salvador da Bahia como campo histórico da pesquisa confere particular relevância ao estudo. Em uma cidade marcada pela presença majoritária da população negra e por uma importante tradição médico científica, os debates sobre raça assumiram papel significativo nos projetos de construção da sociedade brasileira.
A tese demonstra como autores médicos baianos participaram dessas discussões e como o pensamento médico se articulou a projetos mais amplos de eugenização, civilização e formação da nação brasileira.
Mais do que reconstruir o que os médicos diziam sobre os homens, Daniel procura compreender como esses discursos ajudaram a produzir determinadas formas de masculinidade, definindo fronteiras entre comportamentos considerados legítimos e aqueles classificados como anormais.
Uma trajetória dedicada aos estudos das masculinidades
O doutorado representa a continuidade de uma trajetória acadêmica dedicada ao estudo das masculinidades.
Daniel é graduado em Psicologia pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), possui mestrado pela Universidade de Brasília (UnB), com pesquisa dedicada às masculinidades, e conclui agora o doutorado em Saúde Coletiva pela UERJ.
Em sua dissertação de mestrado, Daniel investigou a presença e também a invisibilidade dos estudos sobre masculinidades na produção da Psicologia brasileira. O trabalho ampliou sua trajetória de pesquisa sobre gênero e abriu caminho para uma investigação histórica sobre a construção social dos modelos masculinos.
Sua pesquisa de doutorado amplia essa perspectiva ao deslocar o olhar para o final do século XIX e início do século XX, utilizando documentos médicos históricos para investigar a formação de padrões de masculinidade em Salvador.
Da Psicologia ao sistema de ressocialização
Além da trajetória acadêmica, Daniel possui experiência profissional na Secretaria de Administração Penitenciária e Ressocialização da Bahia (SEAP), onde atuou na área de Psicologia e participou de iniciativas relacionadas à modernização do atendimento psicossocial.
A experiência no sistema de justiça e ressocialização acrescentou à sua formação uma dimensão prática relacionada às questões de comportamento, subjetividade, violência, relações sociais e políticas públicas.
Essa trajetória contribuiu para aproximar diferentes campos de investigação, entre eles Psicologia, Psicanálise, saúde coletiva, gênero, masculinidades, raça e políticas de ressocialização.
A atualidade de uma pesquisa histórica
Embora tenha como objeto documentos produzidos há mais de um século, a pesquisa de Daniel dialoga diretamente com debates contemporâneos sobre masculinidades.
Ao investigar como determinados comportamentos foram historicamente transformados em referências de normalidade masculina, a tese permite compreender que aquilo que muitas vezes parece ser uma característica natural do que significa “ser homem” também é resultado de processos históricos, sociais e culturais.
A pesquisa questiona, portanto, quem define o que é um homem saudável, normal, civilizado ou adequado, e quais são as consequências para aqueles que não correspondem a esses modelos.
O trabalho também contribui para deslocar o debate sobre masculinidades para além das discussões contemporâneas, demonstrando que a produção de modelos masculinos esteve historicamente relacionada a instituições como a medicina e a projetos políticos de sociedade.
Produção científica
A pesquisa desenvolvida por Daniel já vem resultando em produção acadêmica. Em 2025, publicou na revista Physis: Revista de Saúde Coletiva o artigo “O sexo e a cor do cuidado: uma análise a contrapelo da caça aos charlatões em Salvador (1880–1920)”, aprofundando questões relacionadas ao pensamento médico, raça, sexo e práticas de cuidado na Bahia.
Com a defesa de “Sob o olhar de Asclépio: discurso médico e masculinidades em Salvador da Bahia (1880–1930)”, Daniel de Castro Barral consolida uma trajetória que começou na Psicologia e se expandiu para a saúde coletiva e para as ciências sociais, tendo como eixo a investigação das formas pelas quais sociedades produzem, regulam e transformam as masculinidades.
A defesa da tese acontece em 25 de agosto de 2026, na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ).
Sobre Daniel de Castro Barral
Daniel de Castro Barral é psicólogo e psicanalista, graduado em Psicologia pela Universidade Federal da Bahia, mestre pela Universidade de Brasília e doutorando em Saúde Coletiva pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Sua trajetória acadêmica é dedicada aos estudos de gênero e masculinidades, com pesquisas que articulam Psicologia, saúde, raça, sexualidade e história social. Atuou na Secretaria de Administração Penitenciária e Ressocialização da Bahia, onde participou de atividades relacionadas ao atendimento psicossocial e à ressocialização. Atualmente, dedica-se à pesquisa acadêmica e à atuação profissional nos campos da Psicologia, Psicanálise e estudos das masculinidades.