Um dos desafios foi representar Xangô, Ogum, Oxóssi e Omolu a partir de seus aspectos humanos, como guerreiros, caçadores e reis. Para isso, Daniel apostou em pesquisa estética, materiais naturais e técnicas artesanais. O figurino de Omolu foi construído com mais de 300 cabaças, além de cascas, sementes, sisal e pipocas envernizadas e aplicadas manualmente. A peça pesa aproximadamente 15 quilos. Para Ogum, a inspiração veio do guerreiro e da relação com o ferro, com uma composição prateada que reúne búzios, miçangas, fios de conta e cordas, além de cabelo e prótese desenvolvidos especialmente para o dançarino.
Oxóssi ganhou uma estética mais selvagem, com plantas naturais e artificiais, musgo, cascas de madeira, sementes, cordas e macramê, reforçando sua ligação com a floresta. Já Xangô, representado como rei e guerreiro, recebeu pedrarias, metais em latão e elementos em tons de vermelho e fogo, remetendo à riqueza, ao poder, ao fogo e ao dendê.
“A proposta foi criar personagens vivos, humanos, que carregassem a essência de cada orixá. Todo o processo foi pensado para que os materiais, as texturas e o movimento das roupas ajudassem a contar essa história. São figurinos que exigiram muito trabalho manual, pesquisa e cuidado em cada detalhe”, explica Daniel Zarmanno.
Além dos quatro orixás, o estilista criou figurinos para outros personagens do espetáculo, entre eles as mulheres de fogo, do primeiro ato, que receberam mais de 200 metros de organza, em tecidos produzidos especialmente para a Mangueira e trabalhados com bordados. Os iaôs e outros personagens ligados ao universo religioso também seguiram a proposta artesanal.
Outro destaque foi o “Casal do Dendê”, protagonizado pela porta-bandeira Cíntya Santos e pelo mestre-sala Matheus Olivério. A apresentação, inspirada na força de Xangô e Iansã, revelou algumas das primeiras referências estéticas que a Mangueira prepara para 2027.
“É uma responsabilidade muito grande trabalhar com uma escola como a Mangueira e com uma temática que carrega tanta força e ancestralidade. Cada figurino precisava ter identidade própria, mas fazer parte de uma narrativa maior. A proposta do carnavalesco Sidnei França foi criar imagens fortes e despertar no público a curiosidade sobre aquilo que ainda será revelado no desfile”, completa o estilista.