Líder da equipe que encontrou falhas de segurança nas urnas
eletrônicas brasileiras em 2012, o professor do curso de Ciência da
Computação da Universidade de Campinas Diego Aranha arrecadou mais de R$
40 mil para a criação do ‘Você Fiscal’, um aplicativo para celulares
que vai fiscalizar as eleições deste ano. O programa será usado para
detectar qualquer tentativa de fraude ou erro na etapa final da eleição,
o processo chamado totalização, que envolve a soma dos resultados
parciais produzidos por urnas eletrônicas em todo o país. O dinheiro foi
captado no Catarse, um site de financiamento coletivo.
A ideia é simples. Às 17h, quando a votação se encerra, os mesários
são obrigados a fixar o boletim de urna na porta da seção eleitoral. O
documento traz a contagem de votos naquela seção, separado por
candidato. Com o aplicativo, será possível fotografar os boletins e
enviar para a equipe da Unicamp. Lá, os pesquisadores vão comparar o
boletim publicado com o resultado daquela mesma urna registrado e
divulgado pelo site Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Se alguém fraudar
a urna depois da emissão do boletim, o aplicativo descobre. Quanto mais
pessoas tirarem fotos, melhor será o resultado. Quem não tem um
smartphone compatível com o aplicativo pode tirar manualmente as fotos
do boletim e enviar pelo site do Você Fiscal. O aplicativo não exigirá
qualquer tipo de cadastro; as fotos serão publicadas de forma anônima,
sem informar quem as enviou.
O aplicativo é uma resposta à decisão do TSE, que não fará nenhum
teste de segurança antes das eleições de outubro. Em 2012, uma equipe de
três técnicos da Universidade de Brasília (UnB), liderada por Diego
Aranha, conseguiu descobrir a ordem em que 950 votos haviam sido
digitados, sem precisar abrir a urna, em apenas uma hora. O erro
permitia reordenar os votos cadastrados pela urna a partir do Registro
Digital do Voto (RDV), um arquivo que é disponibilizado aos partidos.
Com essa informação mais a ordem de votação em uma seção eleitoral,
seria possível descobrir quem votou em quem. O experimento aconteceu num
teste de segurança público promovido pelo próprio TSE.
Números
Em 2014 serão usadas mais de 500 mil urnas eletrônicas em mais de 430
mil seções eleitorais espalhadas pelo país. Essa será a décima eleição
em que os equipamentos serão utilizados. A primeira vez foi em 1996. “As
urnas usadas no Brasil, com armazenamento puramente eletrônico dos
votos, não fornecem evidências para o eleitor de que seu voto foi
registrado de maneira correta. Na prática, confiamos incondicionalmente
nos funcionários da Justiça Eleitoral”, diz o inventor do aplicativo.
Em relação à integridade dos resultados, apesar de nenhum experimento
ter sido executado por falta de tempo (e interesse posterior do TSE),
os pesquisadores descobriram que o compartilhamento massivo e
armazenamento inseguro de uma chave criptográfica pelas 500 mil urnas
abre a possibilidade de adulteração do software de votação para que ele
não se comporte de maneira honesta. “E isso não precisa necessariamente
ser feito urna a urna, mas em alguns pontos centralizados de
distribuição do software. Caso o software de votação seja manipulado com
sucesso, o resultado pode ser alterado arbitrariamente, sem refletir a
intenção do eleitor”, alerta o especialista.
Para Aranha, o Brasil deveria usar as urnas em operação em outros
países, que combinam a votação eletrônica com a cédula tradicional, para
que os resultados não dependam somente do software.http://www.gazetadopovo.com.br/m/conteudo.phtml?tl=1&id=1488298&tit=Aplicativo-para-celular-vai-fiscalizar-a-urna-eletronica